sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Um brilho em nossas vidas

Coluna Física sem mistério
Publicada no Ciência Hoje On-line
22/12/2006


Na maioria das cidades, as noites de dezembro costumam ser mais brilhantes. Devido às festas natalinas e de final de ano, as ruas, praças, casas, prédios etc. ganham iluminação especial embelezando as noites. Essas cores e brilhos muitas vezes têm o objetivo de imitar as estrelas. Nessa época do ano, de alguma maneira, desejamos estar mais próximos do céu, pois sempre o associamos ao divino e ao mágico. Olhar para o céu e descobrir seus segredos é um desafio que estimula a humanidade há milênios. Entender as estrelas é também compreender um pouco de nós mesmos.

Parte do mistério da nossa existência na Terra está, de certa forma, escrito nas estrelas. Quando o universo surgiu, há aproximadamente 15 bilhões de anos, o hidrogênio e o hélio foram os únicos elementos químicos criados. Os outros 90 que encontramos em nosso planeta foram sintetizados, há bilhões de anos, no interior de alguma estrela. Para permitir que existamos aqui, uma estrela teve que morrer.

As estrelas se formam no interior de gigantescas nuvens de gases e poeira denominadas nebulosas. A força da gravidade – a mesma que nos mantém presos à superfície do nosso planeta – faz com que o hidrogênio e o hélio se acumulem, formando regiões com maior densidade. À medida que ocorre o acréscimo de massa nessas regiões, a intensidade da força gravitacional também cresce (pois ela depende da quantidade de massa), atraindo mais partículas e aumentando a freqüência de colisões entre elas em altas velocidades. Nesse processo, a energia de movimento das partículas se transforma em calor, aumentando a temperatura. Nesse estágio, temos uma proto-estrela.

Passados alguns milhões de anos, a temperatura alcança milhões de graus Celsius. Quando se atinge essa condição, começa a ocorrer o processo de fusão nuclear. Inicialmente, quatro núcleos de átomos de hidrogênio (que possui apenas um próton) se transformam em um átomo de hélio. Para tal, ao longo dessa reação dois prótons se transformam em nêutrons, emitindo dois pósitrons (partícula com a mesma massa do elétron, mas com carga elétrica positiva).

O saldo desse processo é que a massa do núcleo de hélio é menor que a massa inicial dos quatro núcleos de hidrogênio. Essa diferença de massa se transforma em energia, de acordo com a equação de Einstein – E=mc 2 . A partir desse momento a estrela nasce e manterá seu brilho às custas da energia dessa reação.

Contração x expansão

Na maior parte da sua vida, a estrela permanece em equilíbrio, devido ao balanço entre a força gravitacional, que tende fazer com que ela se contraia, e a pressão gerada pela alta temperatura, que tende fazer com que ela se expanda. É como se fosse um cabo de guerra, na qual duas forças competem uma com a outra.

O tempo de duração desse equilíbrio depende da massa inicial: estrelas como o Sol ficam nesse estágio por cerca de 10 bilhões de anos. Quando acaba o hidrogênio disponível para manter os processos de fusão nuclear, a estrela começa a se contrair, aumentando a pressão e a temperatura. Com isso, ela passa a realizar a fusão dos núcleos de hélio, transformando três deles em um núcleo de carbono e liberando energia.

Assim, cada vez que não há mais núcleos disponíveis para manter os processos de produção de energia, a estrela novamente se contrai para aumentar a temperatura e forma elementos cada vez mais pesados. Dependendo da sua massa inicial, ela sintetiza determinados elementos químicos. No caso de estrelas com a massa do Sol, esse processo se encerra no carbono.

ntretanto, nem todos os elementos se formam dessa maneira. Para estrelas com mais de 10 vezes a massa do Sol, como as gigantes azuis, quando começa a se formar o ferro no interior estelar, não há mais liberação de energia; ao contrário, esse processo consome energia e esfria a estrela ainda mais. Nesse caso, o processo final de contração é tão intenso que leva a um gigantesco colapso.

Nesse caso, a matéria fica tão comprimida que os elétrons são empurrados para os núcleos atômicos de forma que eles reajam com os prótons, transformando-se em nêutrons. Nessa situação ocorre um dos eventos mais violentos do universo: a estrela explode e libera, em apenas alguns meses, uma quantidade enorme de energia, equivalente à que ela levaria alguns milhões de anos para emitir, brilhando mais do uma galáxia inteira. Os elementos mais pesados são produzidos durante esse processo. Chamamos tal acontecimento de supernova.

Esses fenômenos ocorrem tipicamente a cada 100 anos em nossa galáxia. Em 1987 ocorreu uma explosão de supernova na galáxia conhecida como Grande Nuvem de Magalhães, que é uma galáxia satélite à nossa. Esse evento pôde ser observado a olho nu. Outras supernovas foram observadas, como aquela avistada em 1054 por astrônomos chineses. Hoje, na posição em que eles registraram a “estrela visitante”, observamos a Nebulosa do Caranguejo. No seu interior existe uma estrela composta apenas de nêutrons, o resto da supernova.

A estrela de Belém

Curiosamente, no ano 5 a.C. os chineses também relatam o aparecimento de uma estrela nova no céu na constelação do Capricórnio. Algumas pessoas relacionaram esse fato com a famosa estrela de Belém que teria anunciado o nascimento de Cristo. Como existem controvérsias sobre essa data, tal evento poderia ter sido utilizado no relato bíblico. Contudo, não foi encontrada nenhuma evidência de uma supernova naquela região do céu.

Mais do que pontos brilhantes no céu, as estrelas, que iluminam a noite e a nossa imaginação são verdadeiras fontes criação no universo. Cada átomo que temos em nossos corpos um dia foi formado no interior de uma estrela há bilhões de anos. O brilho intenso que anuncia a morte de uma estrela também representa a possibilidade do nascimento de outras. De certa forma somos “filhos das estrelas”. Como nos dizem os versos do poeta Olavo Bilac: “Amai (as estrelas) para entendê-las!/ Pois só quem ama pode ter ouvido/ Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

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A coluna Física sem Mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês pelo físico Adilson J. A. de Oliveira, professor da UFSCar

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Apareceu no Click Ciência em 05/12/2006








Nasa anuncia proposta para a construção de pequena colônia na Lua até 2020.

Redação Click Ciência

A Nasa, agência espacial dos Estados Unidos, anunciou hoje (05/12) que pretende dar continuidade à proposta do presidente George W. Bush de retomar os vôos tripulados para a Lua, o que deve ocorrer em 2020. A agência anunciou que planeja dar início à construção de uma base permanente no satélite.

A idéia é estabelecer uma pequena colônia no pólo sul da Lua. A escolha do pólo como local é por conta das temperaturas mais amenas e da maior exposição à luz solar, vital para a geração de energia. Com a energia elétrica será viável a produção de hidrogênio e oxigênio. Esses elementos são considerados indispensáveis para a estadia na Lua, pois são utilizados como combustível nos foguetes e na produção de água.


A partir desta base lunar seria possível enviar astronautas para Marte e, em um futuro distante, para outros planetas do sistema solar. Inicialmente a base começaria com uma tripulação de quatro pessoas, que fará várias estadias de uma semana até que os módulos de habitação e de fornecimento de energia elétrica permitam missões mais longas que poderão ter até 180 dias.


Entretanto, a viabilidade técnica desse projeto ainda é discutível uma vez que muitos desafios deverão ser superados. Um, em particular, é a construção de um novo veículo que leve tanto os astronautas como os equipamentos até a Lua. O custo do projeto ainda não foi totalmente estimado.


Ontem, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o astronauta americano Edwin Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, defendia essa iniciativa do governo Bush, mesmo que para isso fosse necessário cortar as verbas de projetos científicos em andamento. Segundo o físico Adilson de Oliveira, do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos, essa atitude não agradou a comunidade científica, pois o projeto de volta para a Lua pode ter custos muito elevados e pouco retorno tecnológico e científico.


Para Oliveira embora exista um apelo para as viagens espaciais tripuladas talvez essa não seja a melhor forma de explorar o sistema solar, tanto do ponto de vista econômico como do ponto de vista científico. “Enviar pessoas para o espaço além de ser caro envolve muitos riscos.” Investimentos direcionados de forma mais inteligente poderiam trazer mais rapidamente retorno e poderiam viabilizar futuramente viagens tripuladas mais seguras e eficientes, ressalta Oliveira. “Contudo, o feito de mandar novamente astronautas para a Lua terá uma repercussão política muito maior.”

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Os interessados em conhecer algumas “visões” de como poderia ser a colonização da Lua, acessem os desenhos publicados no site BBC Brasil. Eles mostram algumas impressões, entre elas visões um pouco mais contemporâneas, como arranha-céus com cápsulas protetoras. Em outra, haveria uma base habitada com um grande tubo para o envio de cargas à Terra. Acesse o link Mundo da Lua.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Lançamento do Clik Ciência


No próximo dia 29 de novembro lançaremos a revista digital de divulgação científica CLICK CIÊNCIA que estamos construindo alguns meses. Esse novo site é uma proposta de fazer divulgação científica de uma maneira um pouco diferente, não apenas noticiar fatos que aparecem na mídia, mas também aprofundar um pouco mais os conceitos discutidos.
O Lançamento oficial ocorrerá no Almanaque Café em São Carlos.
Todos estão convidados

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Uma estranha forma de ver o mundo

Coluna Física sem mistério
Publicada no Ciência Hoje On-line
17/11/2006

A compreensão do mundo a nossa volta é uma tarefa que tem sido realizada por filósofos e cientistas há milhares de anos. Várias tentativas já foram empreendidas, algumas com sucesso e outras com fracasso. No caso particular da física, muitas teorias e modelos já foram propostos e refutados. Atualmente ela está fundamentada em duas grandes teorias: a teoria da relatividade geral de Einstein e a mecânica quântica.

A mecânica quântica, ao contrário da teoria da relatividade geral, que foi uma obra praticamente exclusiva de Einstein, foi uma realização coletiva construída ao longo das primeiras décadas do século 20. Sua forma de entender a natureza foi uma ruptura com todos os conceitos que a física tinha construído nos séculos anteriores. Depois da mecânica quântica, o mundo nunca mais foi o mesmo.

Uma das idéias revolucionárias introduzidas pela mecânica quântica foi o conceito da dualidade onda-partícula. Até a metade do século 19, vários experimentos tinham mostrado que a luz se comportava como uma onda. Em 1865 o físico escocês James C. Maxwell (1831-1879) demonstrou que a luz era uma manifestação oscilações periódicas produzidas por campos elétricos e magnéticos que se propagam por todo o espaço como se fossem uma onda.

Contudo, mesmo com esses avanços, alguns fenômenos não podiam ser completamente entendidos. Um deles era o efeito fotoelétrico, no qual elétrons podem ser arrancados de um metal, gerando uma corrente elétrica, quando há incidência de luz. O importante nesse efeito não é a intensidade da luz, mas sim a freqüência desta. Se a freqüência for menor do que um determinado patamar mínimo, o fenômeno não é observado.

Contribuições de Einstein

Einstein por volta de 1905, ano em que propôs que a luz era emitida e absorvida como se fosse constituída por pequenas partículas.

A explicação do efeito fotoelétrico foi apresentada pelo alemão Albert Einstein (1879-1955) em 1905. Ele propôs que a luz era emitida e absorvida como se fosse constituída por pequenas partículas (‘quanta de luz’ ou fótons). A energia de cada fóton é proporcional à freqüência associada da luz que incide sobre o material. Dessa maneira, o efeito só é observado quando a luz incidente tem energia suficiente para arrancar os elétrons dos átomos. Por essa explicação (e outras contribuições à ciência), Einstein recebeu o prêmio Nobel de física em 1921.

De acordo com o tipo de situação, a luz apresenta comportamento ondulatório, no caso da sua propagação, ou corpuscular, no caso do efeito fotoelétrico e no processo de fotossíntese, que também ocorre somente para fótons de determinada energia. Contudo, esse comportamento não é privilégio da luz.

Em 1924, o francês Louis de Broglie (1892-1987) propôs que as partículas atômicas constituintes dos átomos poderiam se comportar como se fossem ondas, ou seja, “ondas de matéria”. Alguns anos depois, em 1927, os americanos Clinton J. Davisson (1881-1958) e Lester H. Germer (1896-1971) e o inglês George P. Thomson (1892-1975) demonstraram o comportamento ondulatório para os elétrons de maneira similar com o que acontece com a luz. Esses cientistas incidiram elétrons com alta energia sobre a superfície de um metal e observaram que os elétrons apresentam o fenômeno de difração da mesma forma que a luz.

Em 1937 Davisson e Thomson receberam o Nobel de física pela demonstração experimental da difração de elétrons em cristais. Curiosamente, em 1906, o inglês Joseph J. Thomson (1856-1940, pai de G.P. Thomson) foi agraciado com o Nobel, por suas investigações sobre a condução da eletricidade nos gases, que levaram à descoberta do elétron. Após 31 anos, o seu filho recebeu o mesmo prêmio por demonstrar que essa mesma partícula poderia se comportar como uma onda.

Afinal de contas, a luz é uma onda ou um corpúsculo? Elétrons, prótons nêutrons etc. são ondas ou partículas?

A mecânica quântica explica

O dinamarquês Niels Bohr (esquerda) e o alemão Werner Heisenberg trouxeram contribuições fundamentais para a mecânica quântica.

As respostas a essas questões estão no âmago da mecânica quântica. Podemos dizer que, no mundo microscópico, os aspectos corpusculares e ondulatórios da matéria e energia são complementares, ou seja, um sistema quântico pode tanto exibir aspectos corpusculares ou aspectos ondulatórios, dependendo de como realizamos o nosso experimento, mas não ambos ao mesmo tempo. Portanto, não é possível montar uma experiência onde os dois aspectos possam ser revelados ao mesmo tempo. Essa explicação foi proposta pelo dinamarquês Niels Bohr (1885-1962) em 1928 e ficou conhecida como o princípio da complementaridade.

Associado a esse fato, há um outro princípio fundamental na mecânica quântica conhecido como princípio da incerteza (ou princípio da indeterminação) proposto pelo alemão Werner Heisenberg (1901-1976) em 1927. Esse princípio introduziu a idéia de que é impossível conhecer com certeza absoluta de maneira simultânea a posição e a quantidade de movimento de uma partícula. Da mesma forma, ele limita também nossa percepção em relação ao tempo e à energia de uma partícula. Essa limitação não é tecnológica, mas sim uma imposição da natureza e faz parte do âmago do mundo em escala atômica.

Podemos compreender um pouco melhor a idéia esta idéia imaginando a seguinte situação: para a detecção de qualquer objeto, é necessário interagir com ele. Se o objeto a ser detectado for um ente muito pequeno, como um elétron, precisamos interagir com ele utilizando algo do seu tamanho. Para observarmos um elétron é necessário “iluminá-lo” com uma radiação com comprimento de onda muito pequeno. Ao fazermos isso, a interação com a radiação modifica a quantidade de movimento da partícula. Dessa forma, quanto maior for a nossa precisão em relação à posição do elétron (interagindo com ele com um comprimento de onda muito pequeno), maior será a quantidade de energia que ele absorverá, mudando a sua quantidade de movimento.

Embora esses conceitos da mecânica quântica pareçam estranhos, por contrariarem o senso comum, eles são até hoje demonstrados como válidos. De fato, grande parte da nossa tecnologia, como a eletrônica, o laser , o microscópio eletrônico, a energia atômica etc., é baseada na mecânica quântica. Embora o “mundo quântico” pareça estranho, ele não tem nada de mágico: apenas é dominado por uma outra lógica, por outra forma de ver o mundo.

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A coluna Física sem Mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês pelo físico Adilson J. A. de Oliveira, professor da UFSCar

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

A leveza do mais pesado do que o ar

A pedido do site Cosmos On line, do Diário de Campinas escrevi mais um texto sobre o vôo.
Este texto está um pouco mais didático para explicar o vôo do avião.

A leveza do mais pesado do que o ar


A sensação de voar, para algumas pessoas, é algo que inspira liberdade e leveza. Para outras, embarcar em um avião pode ser uma experiência assustadora. O medo de acontecer algum problema com o avião durante o vôo pode preocupar, pois na grande maioria dos acidentes aéreos não há sobreviventes. Contudo, estatisticamente voar é o meio de transporte mais seguro que existe no mundo. Viajar pelas estradas de automóvel é mais perigoso. Anualmente registram-se mais mortes no trânsito do que em acidentes aéreos, mesmo levando em conta o número de pessoas que utilizam esses meios de transporte. Contudo, a notícia da queda de um avião acaba sendo mais chocante.
O vôo pode ser feito de diversas maneiras. As primeiras tentativas feitas com sucesso foram as utilizando-se balões. Os balões, como aqueles utilizados em festas de crianças, quando são inflados flutuam. Os balões utilizados para transportar pessoas geralmente são preenchidos com ar quente ou com gás hélio. Em ambos os casos o aumento do volume faz com que a densidade do balão (a densidade é a massa do balão dividido pelo volume total) fique menor do que a do ar. Quando isso ocorre, a força de empuxo faz com que o balão suba para os céu, pois objetos cuja densidade seja menor do que a densidade da atmosfera tendem a flutuar. Por esse motivo costuma-se dizer que os balões flutuam por serem “mais leves do que o ar”, ou seja, com menor densidade. Esse efeito é o mesmo que impede que navios com centenas de toneladas afundem, pois neste caso a densidade deles é menor do que a da água.
Entretanto, os balões ou os dirigíveis, que são balões com motores para controlar o deslocamento, são muitos lentos e pouco manobráveis. O brasileiro Alberto Santos Dumont, no dia 23 de outubro de 1906, exatamente há 100 anos, em Paris, mostrou que era possível voar utilizando um veículo mais pesado do que o ar, inventando o avião.
A explicação para o vôo dos aviões está baseada no conhecido princípio de Bernoulli, segundo o qual a maior velocidade do fluxo de ar na parte superior das asas provoca uma pressão menor, e como conseqüência a diferenças de pressões sobre o aerofólio em virtude das diferentes velocidades do fluxo do ar em cima e abaixo causa a força de sustentação. A Figura 1 abaixo esclarece um pouco melhor essa situação.




Figura 1 – As setas em azul indicam o fluxo do ar próximo a asa de um avião. A seta em vermelho na vertical representa a força de sustentação, resultante da pressão menor na parte de cima da asa. A seta em vermelho na horizontal representa o arrasto do ar.

O avião para se movimentar utiliza uma hélice ou uma turbina que tem o objetivo de “sugar” o ar e impulsiona-lo para trás. Devido ao princípio da ação e reação, o avião sofre uma reação e é impulsionado para frente. Na medida na qual o avião aumenta a sua velocidade, o ar flui pela asa como mostrado na figura acima. O movimento do “flap” (dispositivos que consistem de abas articuladas) muda o perfil da asa, ajudando na sustentabilidade e controle da aeronave no ar. Esse dispositivo é utilizando nas operações de pouso e decolagem. Na Figura 2 abaixo pode-se observar mais alguns detalhes das partes móveis de um avião que são responsáveis pelo controle do vôo.


Figura 2 – Detalhes das partes móveis do avião: Ailerons – alteram a sustentação nas pontas da asa do avião permitindo giro no seu eixo longitudinal – Leme: - parte móvel da aeronave que permite que a mesma gire em torno de seu eixo vertical – Profundador e elevador – permite o controle para subir e abaixar o nariz do avião – Fonte: Wikipédia

Desde o vôo do 14-bis os aviões evoluíram muito e hoje é fácil se deslocar de um continente para outro em algumas horas. Esse era o sonho imaginado por Santos-Dumont. Construir algo que facilitasse a vida das pessoas. Infelizmente o avião também se tornou uma das mais mortais armas de guerra já criadas, aplicação que jamais Santos Dumont concordou. Contudo, o legado deixado pelo “Pai da aviação” será sempre lembrado como um grande incentivo para nos aventurarmos para vôos mais altos.

sábado, 21 de outubro de 2006

Os vôos da imaginação

Coluna Física Sem Mistério
Publicada no Ciência-Hoje On-line
20/10/2006

A capacidade de imaginar é uma das características mais marcantes da inteligência humana. Utilizando essa capacidade, o homem consegue entender o mundo ao seu redor e, a partir dessa compreensão, consegue, por exemplo, superar limitações físicas e vencer as distâncias. Um dos sonhos mais antigos do homem é alcançar os céus. Em praticamente todas as culturas, em todas as épocas, o céu era considerado um lugar especial, reservado apenas a heróis e deuses. Muitos povos imaginavam que as posições das estrelas representavam seus mitos e lendas e imortalizavam seus deuses, heróis, crenças, esperanças e, em alguns casos, temores. Tais configurações são conhecidas como constelações.

Foi por meio da imaginação que muitos tentaram atingir os céus. Em particular, o mito do vôo de Ícaro nos mostra que esse desejo vem de épocas remotas. Segundo a mitologia, Dédalo, o pai de Ícaro, construiu asas com penas de pássaros coladas com cera, para que ambos pudessem fugir do labirinto do Minotauro, onde foram presos pelo rei Minos. Antes de levantar vôo, o pai recomendou a Ícaro que não deveriam voar nem muito alto (perto do Sol, cujo calor derreteria a cera), nem muito baixo (perto do mar, pois a umidade tornaria as asas pesadas). Entretanto, a sensação de voar foi tão estonteante para Ícaro que ele esqueceu a recomendação e elevou-se tanto nos ares a ponto da previsão de Dédalo ocorrer. A cera derreteu e Ícaro perdeu as asas, precipitando-se no mar e morrendo afogado.

Sabemos que um vôo como o de Ícaro e Dédalo é impossível e que voar mais alto não o levaria tão perto do Sol a ponto de derreter a cera que colava as penas. Nenhum ser humano tem força física suficiente para levantar o seu peso batendo as asas como um pássaro. Felizmente, ao invés de força física, a imaginação e a inteligência podem ser os maiores aliados para superarmos nossas limitações.

Dos balões aos aviões

As primeiras tentativas bem sucedidas de voar aconteceram com o uso de balões. Quando os balões são inflados com ar quente ou com gás hélio, eles levantam do solo, porque o aumento do volume faz com que a densidade do balão (a densidade é a massa do balão dividida pelo seu volume total) fique menor do que a do ar. Quando isso ocorre, a força de empuxo faz com que o balão suba para o céu, pois objetos cuja densidade seja menor do que a densidade da atmosfera tendem a flutuar. Por esse motivo, costuma-se dizer que os balões flutuam por serem ‘mais leves do que o ar’, ou seja, com menor densidade. Esse efeito é o mesmo que impede que navios com centenas de toneladas afundem, pois, como têm um compartimento cheio de ar, a densidade deles torna-se menor do que a da água.

Entretanto, os balões (ou dirigíveis, que são balões com motores para deslocamento) eram muitos lentos e pouco manobráveis. Era possível alcançar o céu, mas não podíamos voar como os pássaros. Esse desafio começou a ser vencido com o vôo histórico do 14 Bis do brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932), em Paris, que ocorreu em 23 de outubro de 1906, exatamente há 100 anos. Santos Dumont mostrou que era possível voar utilizando um veículo mais pesado do que o ar. Inventou, assim, o avião.

A explicação para o vôo dos aviões está baseada no conhecido princípio de Bernoulli, segundo o qual a maior velocidade do fluxo de ar na parte superior das asas provoca uma pressão menor e, como conseqüência, a diferença de pressão sobre o aerofólio, devido às diferentes velocidades do fluxo do ar em cima e embaixo dele, gera a força de sustentação. Essa explicação foi desenvolvida por diversos pesquisadores no começo do século 20.

Desde o vôo do 14 Bis, os aviões evoluíram muito e hoje é fácil se deslocar de um continente para outro em algumas horas. Esse era o sonho de Santos Dumont: o avião como um meio de transporte que facilitasse a vida das pessoas. Infelizmente, o avião também se tornou uma das mais mortais armas de guerra já criadas, aplicação com a qual Santos Dumont jamais concordou. Contudo, o legado deixado pelo ‘pai da aviação’ será sempre lembrado como um grande incentivo para nos aventurarmos em vôos mais altos.


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A coluna Física sem Mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês pelo físico Adilson J. A. de Oliveira, professor da UFSCar

Ultrapassamos a marca dos 20.000 acessos

Agora no mês de outubro o Blog ultrapassou a marca de 20.000 visitas.
Sem dúvida fico contente, principalmente porque a marca de 10.000 visitas, atingida em maio desse ano, levou cerca 16 meses. A novas 10.000 visitas ocorreram nos últimos 6 meses.
Espero que continue agradando os visitantes.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Os 40 anos da Sociedade Brasileira de Física



Nos dias 02 e 03 de outubro houve um evento comemorando os 40 anos da SBF - Sociedade Brasileira de Física. Foram uma série de palestras sobre os principais temas de pesquisa em Física no Brasil. Foi interessante poder ver as várias áreas da Física, uma vez que devido ao tamanho da comunidade (algo de 6000 doutores em Física no Brasil) não existe um evento onde todos se encontram. Neste, em particular, tinha a presença de aproximandamente 500 pessoas no Auditório Elis Regina em São Paulo.

Em particular, a sessão de encerramento, na qual foram homenageados todos os ex-presidentes ainda vivos, foi muito interessante. Encontrar com alguns que fizeram (e fazem a história) da Física do Brasil é sempre facinante. Alguns estudantes de graduação que compareceram ao evento (infelizmente poucos) puderam conhecer e se orgulhar de um pouco do que a da Física brasileira já fez e quanto os físicos sempre estiveram empenhados não somente na própria Física, mas também em momentos políticos difíceis que o Brasil já viveu, como na época da ditadura militar.

Entretanto, o mais curioso de tudo foi a auto exaltação dos Físicos. Como para o encerramento estavam convidados o Ministro da Ciência e Tecnologia, Prof. Sérgio Rezende (que também é físico, mas não pode comparecer devido a problemas no vôo), o Diretor da FAPESP (Carlos H. de Brito da Cruz, também físico), Ronaldo Motta (secretário do MEC, também físico) lembrou-se que muitos físicos brasileiros ocuparam (ou ocupam ) cargos de destaque na área da pólitica científica brasileira. Alguns deles são chamados para trabalhar em áreas que a sua formação científica não tem relação com a atividade que vão desempenhar. Dessa forma, os físicos podem fazer qualquer coisa, pois eles são capazes de aprender tudo, ou seja, "os físicos são o máximo!"

Então, uma pergunta surgiu. Por que os físicos são (ou se acham) o máximo? Qual a evidência científica disso? Essas perguntas foram feitas pelo físico Constantino Tsallis, um dos mais importantes físicos teóricos brasileiros.

A resposta para essas perguntas, dada por ele mesmo, da forma que eu entendi, seria o seguinte:

Segundo Aristóteles a maior feito da capacidade humana é a criação de metáforas, pois elas permitem a compreensão do mundo. Segundo Tsallis, os físicos talvez sejam bons em justamente fazer isso, ou seja, criar as suas metáforas (modelos) para compreender o mundo. Daí, então, a empáfia dos físicos de se acharem o máximo.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Números da Produção Científica

Aproveitando o artigo publicado pelo jornalista Marcelo Leite na sua coluna "Ciência em Dia" na Folha de S. Paulo de 24/09/2006 (Rivalidades Eletivas) fiz um pequeno levantamento sobre a área de Física, em particular da UFSCar, utilizando o sítio do Ranking Iberoamerciano de Instituiciones de Investigacion descobri foi o seguinte:

Em termos de América Latina:

A Física da UFSCar é:

18ª. Instituição em número de publicações. (1053 entre 1990-2004)

35ª. Instituição no ranking de Fator de Impacto Normalizado (Citações por número de artigos publicados)

Em termos de Brasil:

A Física da UFSCar é:

9ª. Instituição em número de publicações. – Entre as 15 primeiras, sem dúvida, a UFSCar tem o menor número de docentes

8ª. Instituição no ranking de Fator de Impacto Normalizado – Neste caso ficando à frente da USP, UNICAMP, UFRGS, UFMG (todas instituições com conceito 7 da CAPES)

Esses números mostram fruto de um trabalho coletivo de todos os que passaram e ainda estão no DF/UFSCar.

Apenas para comparação a UFSCar está décimo lugar no ranking das universidades brasileiras com 3553 artigos nesse período.


terça-feira, 19 de setembro de 2006

A HARMONIA CÓSMICA

Coluna Física sem Mistério

Ciência Hoje On-line
19/09/2006

A beleza e a harmonia das formas são características que sempre procuramos identificar ao nosso redor. As formas perfeitas e simétricas sempre nos chamam mais a atenção que os objetos que não apresentam essas características. Um belo rosto é sempre aquele que traz as formas mais proporcionais, simétricas e harmoniosas. Platão associava o belo ao bom. Para esse filósofo, a beleza absoluta, que seria imutável e universal, estaria relacionada à ordem, à simetria, à harmonia e às proporções equilibradas. Ao fazer essa associação, chegava a considerar que o bem supremo seria a junção de um corpo belo com uma mente bela.

A busca da harmonia também alcançou os céus. Pitágoras, no século 6 a.C., construiu uma teoria da harmonia das esferas celestes, na qual havia uma consonância das notas que os astros produziriam em seus movimentos regulares. O cosmos todo executaria uma música universal – a música das esferas.

Ele percebeu que os sons musicais harmoniosos são emitidos por uma corda vibrante cujo comprimento é dividido segundo proporções simples, ou seja, existe uma relação entre sons harmoniosos e números inteiros. Reduzindo-se o comprimento da corda de um violão à metade, esta passa a emitir um som uma oitava acima, isto é, com o dobro da freqüência. Dessa forma, para Pitágoras, relações desse tipo indicavam que “todas as coisas eram números inteiros”.

A busca pela harmonia cósmica prosseguiu com um dos mais importantes cientistas de todos os tempos: o alemão Johannes Kepler (1571-1630). Segundo consta, durante uma das suas aulas na Escola Luterana de Graz, na Áustria, em 1594, Kepler considerou que não deveria ser uma simples coincidência o fato de existirem apenas cinco sólidos regulares – tetraedro, cubo, octaedro, dodecaedro e o icosaedro, com 4, 6, 8 12 e 20 faces, respectivamente – e seis planetas conhecidos na época – Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

Ele imaginou que cada um desses sólidos geométricos estaria circunscrito por uma esfera, de forma a obter seis esferas concêntricas com raios que seriam iguais às trajetórias circulares dos planetas em torno do Sol, colocado no centro desse arranjo. No entanto, como sabemos atualmente, o modelo proposto por Kepler é apenas belo e não representa a realidade, pois existem outros planetas no nosso Sistema Solar e mais de uma centena orbitando outras estrelas. Contudo, esse modelo permitia obter o raio das órbitas dos planetas com uma precisão da ordem de 5%.
A procura pela harmonia cósmica pode ser entendida, nos dias de hoje, como a busca por leis físicas fundamentais que, em princípio, descrevam todos os fenômenos da natureza. Conhecemos atualmente quatro forças fundamentais: gravitacional, eletromagnética, nuclear forte e nuclear fraca. Todas essas forças moldam o nosso universo.

As quatro forças fundamentais

A gravidade é a mais importante para os processos em grande escala, pois determina os movimentos das galáxias, estrelas e planetas, bem como nos mantém presos à superfície da Terra. Por meio da força eletromagnética, átomos e moléculas se combinam e formam toda a matéria conhecida. As forças nucleares fortes e fracas determinam a estrutura do núcleo atômico, sendo que a primeira é responsável pela coesão do núcleo e a segunda pelos processos de decaimento radioativo.

Existiria ainda uma quinta força que atua apenas no universo na escala de bilhões de anos-luz e funciona como se fosse uma “antigravidade cósmica” que controla a expansão do universo. Contudo, ainda não se tem uma explicação definitiva sobre ela. Três dessas forças (eletromagnética, nuclear forte e fraca) são explicadas no âmbito da mecânica quântica, enquanto a gravidade é explicada pela teoria da relatividade geral de Einstein. Essas duas teorias não conseguem ser compatibilizadas, pois partem de idéias e princípios totalmente distintos. A primeira descreve o universo na escala atômica, e a segunda, na escala cósmica.
O "Santo Graal" da Física

Até o momento, não houve sucesso em encontrar uma teoria que descreva a harmonia cósmica por completo. Uma das tentativas para resolver esse desafio é a chamada “teorias de cordas”, na qual os blocos fundamentais da natureza seriam “cordas” com dimensão na ordem de 10 -35 metros que vibrariam no espaço e no tempo.

Nessa proposta, seria possível se obter uma única teoria que reunisse a gravidade e as outras forças da natureza, desde que o universo tivesse dez dimensões espaciais e uma temporal, explicando assim as características da forças fundamentais da natureza. Entretanto, ainda não foi possível verificar experimentalmente as previsões feitas pelas teorias de cordas. Espera-se que nos próximos anos sejam descobertas as primeiras evidências da existência desses entes físicos.

Talvez a teoria das cordas seja o “Santo Graal” da Física. Seria como voltar à música das esferas proposta por Pitágoras há 2500 anos. Desta vez, as notas da sinfonia cósmica seriam tocadas por cordas que vibrariam muito além da nossa percepção cotidiana. Contudo, nem sempre a beleza reflete a realidade e, talvez, essa teoria seja apenas mais um dos sonhos em busca da beleza eterna e imutável

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

ICM 2006 - Quinto e último dia

Hoje além de apresentar os meus trabalhos, que são sobre o exótico magnetismo do Cr e suas ligas posso destacar dois trabalhos interessantes:

Eletrodeposição com aplicação de campo magnético.: Um caminho interessante de se produzir os famosos materiais nanoestruturados é pela via eletroquímica. No caso específico do trabalho do coreano Jun Hua Wu ele utilizou o campo magnético para induzir uma direção de crescimento preferencial para o material. Os resultados foram interessantes, pois ele conseguiu uma mudança importante na propriedade magnética do material (a anisotropia magnética).

Semicondutores magnéticos: Os materiais semicondutores são a base da eletrônica atual. Em particular um dos temas importantes de pesquisa na área de magnetismo é produzir esse tipo de material que além de manter as propriedades interessantes para eletrônica, ele possa vir a ser também um material magnético, para ser utilizado na spintrônica. O trabalho da pesquisadora espanhola M. C, Muñoz, de Madri, mostrou uma nova forma de compreender esse tipo de material, a partir de cálculos fundamentais.

Na sessão de encerramento da conferência, foi apresentado o novo local dessa Conferência, que será em 2009 em Karlsruhe, na Alemanha. Já foi decidido também que a ICM 2012 será em Vancouver, no Canadá, pois a presença dos pesquisadores da América do Norte foi muito baixa.

Espero ainda algum comentário sobre os meus relatos do Japão.
Estou voltando para o Brasil amanhã. Serão novamente 30 horas de viagem, mas domingo estarei em casa.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Foi re-definido o conceito de planeta

Antes de dormir (afinal estou no Japão), recebi a notícia que foi aprovada pela União Astronômica Internacional , em sua reunião em Praga, decidiu rebaixar Plutão de categoria, definindo um o novo conceito de planeta.

A resolução chama de "planetas clássicos" os planetas de Mercúrio até Netuno.
É criada uma nova classe de objetos, chamados de "plutunianos", no qual Plutão é o paradigma.

É apenas uma mudança de classificação. Com certeza, Plutão não se incomodará.
mais detalhes no endereço http://www.iau2006.org/mirror/www.iau.org/iau0602/index.html.

É claro que para a Astrologia isso se torna um grande problema.....

ICM 2006 - quarto dia

Hoje assisti alguns trabalhos interessantes sobre nanopartículas. O estudo de nanopartículas magnéticas é uma das áreas mais ativas do magnetismo, pois elas estão relacionadas com o atual desenvolvimento tecnológico, principalmente na área de gravação magnética.
Um trabalho diferente foi o do T. Herrmannsdoerfer que utilizou uma bactéria como o substrato para produzir as nanopartículas, obtendo materiais magnéticos e supercondutores. Essa mais uma das típicas idéias que somente físicos vão ter.
Uma outra informação interessante: A conferência teve 2003 inscritos, sendo que 1000 são japoneses. A segunda maior delegação é coreana, depois seguida pela alemã. Foram apenas 86 americano, totalmente desproporcional ao peso que eles tem nessa área. Franceses e ingleses totalizaram 56 cada. Argentinos e portugueses apenas 2.
Os brasileiros totalizaram 25!!!!
Como alguns colegas brincaram, o custo da nossa partícipação não dá nem uma daquelas ambulâncias superfaturadas!!!
Faltou o ministro da Ciência e Tecnologia, o Prof. Sérgio Rezende, que devido a imprevistos de última hora não compareceu. Ele foi o chairmain dessa conferência quando ela foi realizada no Recife em 2000 (ICM 2000). Nesse link há um pouco da história do magnetismo no Brasil, escrito pelo Prof. Rezende

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

ICM 2006 - Terceiro Dia


Hoje foi o dia da magnetorresistência túnel (TMR) de novo. O grande astro desta vez será o óxido de magnésio (MgO) que já foi usado muitas vezes como substrato e agora ele parece ser uma barreira ideal. Já existem resultados que mostram TMR de mais de 400 % em temperatura ambiente. O Stuart Parkin, em sua palestra, mostrou que esse material será determinante para a nova geração de dispositivos de leitura magnética e de memória de acesso magnético. Ele que não é bobo já tem uma patente de um dispositivo como esse.

Na parte da tarde tivemos folga. Fui na excursão da conferência conhecer alguns lugares interessantes. Sem dúvida o melhor foi o templo Budista Kiyomizu-temple. Para conhecer um pouco deste lugar click aqui.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

ICM 2006 - Segundo Dia

Hoje fui ver um pouco de um tema que também anda quente nos últimos congressos da área:

"Exchange Bias". Este é um fenômeno que está relacionada com a interação de um material ferromagnético e antiferromagnético. Tem várias aplicações tecnológicas no momento, em particular nas cabeças leitoras dos discos rígidos. Assisti a palestra do Nogués que falou principalmente do efeito de vórtices magnéticos que surgem dependendo da direção do campo magnético aplicado.

Ainda no período da manhã as palestras do David Awschalon e do J. Wunderlich discutiram um efeito recente e importante em semicondutores: Spin Hall Effect. Esse é o efeito Hall aplicado no spin, ou seja, além de desviar a corrente elétrica devido a aplicação de campo magnético esse efeito também depende do spin, no caso de estruturas semicondutoras, como o GaMnAs e o ZnSe. O interessante foi uma imagem que ambos os palestrantes fizeram. Até 1996 se utilizava apenas a carga do elétron para controlar e manipular informações, aplicando-se campos elétricos e magnéticos. Em 2006 se utiliza além da carga o spin do elétron, aplicando campos magnéticos e elétricos. A previsão é que em 2016 se utilizará apenas o spin que seria manipulado apenas pela aplicação de campo elétrico.

Chamou também a minha atenção, no período da tarde, o trabalho do Dominique Givord (que sempre tem sacadas brilhantes). A proposta dele é manipular spins em metais (o que se consegue hoje é em materiais isolantes e semicondutores) pela aplicação de campo elétrico. parece que ele conseguiu, utilizando um truque eletroquímico.

Para terminar, entre os mais de 500 poster que são apresentados todas as tardes, em um deles eu descobri algo que nunca tinha me passado pela cabeça. Além do esperma do ouriço do mar sofrer orientação devido a aplicação de campo magnético, o esperma humano também se orienta da mesma maneira. Detalhe: o trabalho era de uma cientista do Barehen. Isso é típicamente uma coisa que somente um físico pensaria.

Amanhã conto algo novo, em particular por ser o dia do passeio da conferência por Kyoto.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

ICM 2006 - Primeiro Dia

A conferência começou hoje de fato. o Kyoto International Center é muito bonito e tem uma arquitetura futurista. Parece uma nave espacial.
As palestras de abertura, feita no impressionante salão principal, foram do J. Slonczewski e do Albert Fert.

Slonczewski falou de um tema que vai dominar a conferência. O efeito de corrente na direção do spin. Para os que não estão familiarizados com esse conceito, trata-se da observação do efeito de um campo elétrico em um material magnético. Isso seria um grande avanço na chamada spintrônica, pois poderia-se controlar simultaneamente o spin do elétron e a sua carga, com a combinação de campos magnéticos e elétricos. O Slonczewski já tinha previsto isso em 1996 e somente agora o efeito está sendo observado.
Ele apresentou um nome novo para isso "torkance", pois a direção do spin sofre um torque (uma força aplicada em uma determinada direção) devido a aplicação do campo elétrico, e como conseqüência, muda a resistência elétrica do material ( de fato a magnetorresistência túnel).

O Prof. Fert falou sobre as perspectivas futuras sobre a spintrônica, chamando atenção dos materiais que foram imaginados como promissores (segundo as previsões teóricas), mas que não se confirmaram experimentalmente. O grande problema é sempre a injeção de spin através de uma interface, que leva a perda de informação.As novas apostas são os materiais óxidos e as ligas de Heusler.

No período da tarde, assisti a seção exatamente sobre esse tema (Current induced magnetization reversal I) Foram duas palestras convidadas (D. Ralph, M. D. Stiles) . A conversa continou a mesma.

Por favor comentem.

sábado, 19 de agosto de 2006

Comentando a ICM - 2006 - A chegada

19/08/2006

A conferência ainda não começou, mas já deu para sentir a canseira. Depois de 25 horas de vôo e mais 7 horas de espera em Chicago, finalmente cheguei a Kyoto, que é, sem dúvida, uma cidade fascinante.
Amanhã no final da tarde e começo da noite (horário do Japão) tem apenas a festa de abertura.

Comentando a International Conference on Magnetism

Estou nessa semana em Kyoto no Japão participando da International Conference on Magnetism, que é a maior conferência sobre o tema. Estão presentes nela os principais expoentes do assunto no mundo. Em particular o tema que será quente esse ano, novamente, é a SPINTRÔNICA.
Vou fazer um relato diário dos principais acontecimentos que eu puder acompanhar pois existem muitas sessões paralelas.
Embora seja um assunto restrito, espero que pelo menos desperte um pouco da curiosidade de vocês. Vou tentar fazer como alguns fizeram quando estavam na Copa do Mundo, pois aqui é a Copa do Mundo de Magnetismo.
Como sempre, os comentários serão bem vindos.

O Caos e a ordem - Nova versão

Coluna Física Sem Mistério
Ciência Hoje On-line
18 de agosto de 2007

A vida em grandes metrópoles – como São Paulo, Tóquio, Nova York e Paris – apresenta uma série de vantagens que tornam essas cidades especiais. Nelas encontramos muitos dos atributos que consideramos sinônimos de progresso, como facilidades de acesso aos bens de consumo, oportunidades de trabalho, lazer, serviços, educação, saúde etc.

Por outro lado, em algumas delas, devido à grandiosidade dessas cidades e aos milhões de cidadãos que ali moram, existem muito mais problemas do que benefícios. Seus habitantes sabem como são complicados o trânsito, a segurança pública, a poluição, os problemas ambientais, a habitação etc. Sem dúvida, são desafios que exigem muito esforço não só dos governantes, mas também de todas as pessoas que vivem nesses lugares. Essas cidades convivem ao mesmo tempo com a ordem e o caos, com a pobreza e a riqueza, com a beleza e a feiúra.

A tendência das coisas a se desordenarem espontaneamente é uma característica fundamental da natureza. Para que ocorra a organização, é necessária alguma ação que restabeleça a ordem. É o que acontece nas grandes cidades: despoluir um rio, melhorar a condição de vida dos seus habitantes e diminuir a violência, por exemplo, são tarefas que exigem muito trabalho e não acontecem espontaneamente. Se não houver qualquer ação nesse sentido, a tendência é que prevaleça a desorganização.

Em nosso cotidiano percebemos que é mais fácil deixarmos as coisas desorganizadas do que em ordem. Quando espalhamos objetos pela casa, temos muito trabalho para colocarmos as coisas em ordem. Organizar é sempre mais difícil que bagunçar. A ordem tem seu preço.

Entropia

A existência da ordem/desordem está relacionada com uma característica fundamental da natureza que denominamos entropia. A entropia está relacionada com a quantidade de informação necessária para caracterizar um sistema. Dessa forma, quanto maior a entropia, mais informações são necessárias para descrevermos um sistema.

Para facilitar a compreensão desse conceito, podemos fazer uma analogia com algo bastante comum: cartas de baralho. Se inicialmente tivermos o baralho com as cartas organizadas de acordo com a sua seqüência e naipes, o nosso sistema (baralho) contém um certo grau de informação. Rapidamente descobrimos qual é a regra que está organizando as cartas.

Por outro lado, quando embaralhamos as cartas, bastam apenas alguns movimentos para que a seqüência inicial seja desfeita, ou seja, as cartas ficam mais desorganizadas. Para recolocá-las na ordem inicial, necessitaremos de muito mais informações a respeito da posição da carta (teremos que descobrir onde está o 5 de copas para colocá-lo após o 4 de copas). As cartas embaralhadas apresentam, então, uma entropia maior do que a das cartas organizadas.

A tendência do aumento da entropia está relacionada com uma das mais importantes leis da física: A segunda lei da termodinâmica. Essa lei mostra que, toda vez que realizamos algum trabalho, parte da energia empregada é perdida para o ambiente, ou seja, não se transforma em trabalho útil. Ao organizarmos as cartas, gastamos energia e, conseqüentemente, liberamos algum calor para o meio ambiente. A energia liberada ajudará a desorganizar as moléculas de ar ao nosso redor, aumentando a entropia ao nosso redor. Dessa forma, para diminuir a entropia de um determinado lugar é necessário aumentar a entropia em outro.

Embate Constante

A manutenção da vida é um embate constante contra a entropia. A luta contra a desorganização é travada a cada momento por nós. Desde o momento da nossa concepção, a partir da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, nosso organismo vai se desenvolvendo e ficando mais complexo. Partimos de uma única célula e chegamos à fase adulta com trilhões delas, especializadas para determinadas funções. A vida é, de fato, um evento muito especial e, até o momento, sabemos que ela ocorreu em um único lugar do universo – o nosso planeta.

Entretanto, com o passar do tempo, nosso organismo não consegue mais vencer essa batalha. Começamos a sentir os efeitos do tempo e envelhecer. Nosso corpo já não consegue manter pele com a mesma elasticidade, os cabelos caem e nossos órgãos não funcionam mais adequadamente. Em um determinado momento, ocorre uma falha fatal e morremos.

Como a manutenção da vida é uma luta pela organização, quando esta cessa, imediatamente o corpo começa a se deteriorar e rapidamente perde todas as características que levaram muitos anos para se estabelecer. As informações acumuladas ao longo de anos, registradas em nosso cérebro a partir de configurações específicas dos neurônios, serão perdidas e não poderão ser novamente recuperadas com a completa deterioração do nosso cérebro.

A entropia nos mostra que a ordem que encontramos na natureza é fruto da ação de forças fundamentais que, ao interagirem com a matéria, permitem que esta se organize. Desde a formação do nosso planeta, há cerca de cinco bilhões de anos, a vida somente conseguiu se desenvolver às custas de transformar a energia recebida pelo Sol em uma forma útil, ou seja, capaz de manter a organização.

Para tal, pagamos um preço alto: grande parte dessa energia é perdida, principalmente na forma de calor. Dessa forma, para que existamos, pagamos o preço de aumentar a desorganização do nosso planeta. Quando o Sol não puder mais fornecer essa energia, dentro de mais cinco bilhões de anos, não existirá mais vida na Terra. Com certeza a espécie humana já terá sido extinta muito antes disso.

O universo também não resistirá ao embate contra o aumento da entropia. Em uma escala inimaginável de tempo de 10 elevado a 100 anos (10 seguido de 100 zeros!), se o universo continuar a sua expansão, que já dura aproximadamente 15 bilhões de anos, tudo o que conhecemos estará absolutamente disperso. A entropia finalmente vencerá. Mas essa historia fica para um outro dia.

sábado, 29 de julho de 2006

O Brasil diminui a participação na ISS

A notícia foi publicada hoje no jornal Folha de S. Paulo.

Depois de quase 10 anos do Brasil ter prometido investir na Estação Internacional Espacial US$ 120 milhões foi acordado agora com a NASA que o nosso investimento será de US$ 10 milhões, menos de 10% do previsto incialmente, pois o Brasil além de não ter dinheiro para bancar tal empreitada também não teria tecnologia para fazê-lo. Segundo o jornal, parte dos componentes eletrônicos deveriam ser importados. Alternativamente a isso, faremos os suportes de alumínio dos equipamentos que não teremos como produzir.

Há o lado bom disso. Poderemos mandar algumas prateleiras para o espaço e qualificar a nossa indústria para tal feito.

O incrível de tudo isso é que segundo o presidente da AEB (Agência Espacial Brasileira), Sérgio Gaudenzi, AINDA poderemos mandar outro astronauta para o espaço, pois o primeiro (e talvez o único) já se aposentou!!!!

A nota da Folha de S. Paulo pode ser acessada neste link.

A NASA realmente anda caçando níqueis e o pior e nós que somos um país muito rico estamos entrando nessa. Com uma participação de 0,001% do custo da estação poderemos fazer experimentos proporcionais a esse investimento. Vai dar para plantar mais alguns feijões no espaço.

Alguém sabe me informar sobre os resultados dos experimentos realizados pelo Pontes??

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Um novo tempo

Coluna Física Sem Mistério
Ciência Hoje On-line
21 de julho de 2007
O atual estilo de vida que levamos, principalmente nas grandes cidades, repleto de compromissos e atividades, nos transforma em escravos do tempo. Sobra pouco tempo para algumas das coisas que mais apreciamos, como ficarmos com as pessoas que amamos ou fazermos o que realmente gostamos. Sem dúvida, ansiamos por mais tempo. Tentamos nos libertar da opressão dos relógios, aprendendo a otimizar as nossas atividades e a priorizar o que é realmente importante para nós. Afinal de contas, sabemos realmente o que seja o tempo?
Analisada do ponto de vista humano, a noção de tempo varia de indivíduo para indivíduo.
Dependendo da idade ou do momento de vida, sentimos sua passagem de maneira diferente. Nos primeiros anos da infância, temos a sensação de que ele passa muito devagar, quase como se fosse imóvel. Algumas crianças reclamam que demora muito para chegar o aniversário, ou que os minutos durante os quais são colocadas de castigo parecem uma eternidade. Conforme passamos pela adolescência e chegamos à fase adulta, aumentam nossos compromissos e a sensação é que o tempo começa a passar mais depressa. Para algumas pessoas, principalmente as solitárias, ao atingir a velhice, o tempo também passa lentamente.
Nossa noção de tempo não está ligada apenas ao nosso íntimo – o tempo psicológico –, mas está relacionada também à cultura e à sociedade em que estamos inseridos. Percebemos sua passagem também a partir dos pontos de referência demarcados por outras pessoas. Esses pontos de referência evoluíram muito desde o início da humanidade. O tempo tem, portanto, uma história.
Relógios de areia e clipsidra
As primeiras formas de marcar o tempo estavam relacionadas ao movimento dos corpos celestes. Em particular, o movimento do Sol, da Lua e das estrelas foram os primeiros relógios. Outros instrumentos como os relógios de areia e a clipsidra (uma espécie de concha furada para vazar a água) eram utilizados para medir intervalos mais curtos.
De maneira mais objetiva, o tempo começou a ser medido com maior precisão na época das Grandes Navegações, pois seu conhecimento era de fundamental importância para orientar os navegantes. A diferença entre o tempo medido no relógio e aquele associado com a posição do Sol permitia que os navegantes determinassem a longitude, ou seja, quanto eles tinham viajado na direção oeste-leste. A medida da latitude – quanto eles tinham viajado na direção norte-sul – era determinada a partir da posição das estrelas no céu.
Por volta do ano de 1762 foi inventado um relógio que tinha a precisão de um segundo em um mês, mesmo em um barco em movimento. O relógio era acertado com a hora do ponto de partida da embarcação e a longitude do ponto era calculada comparando a diferença entre a hora local (medida pela altura solar, por exemplo) com a hora que o relógio marca. Cada hora de diferença para mais ou para menos corresponde a um deslocamento de 15 graus de longitude leste ou oeste, respectivamente.
De Galileu a Einstein
Galileu Galilei, um dos maiores gênios da história, preocupou-se em medir e utilizar o tempo como uma maneira de compreender a natureza. Ao determinar equações de movimento da queda dos corpos, Galileu começou a mostrar que ele faz parte da natureza, pois era possível prever os movimentos conforme o tempo passava. Posteriormente, Isaac Newton, que construiu as bases da física clássica, apresentou o conceito de tempo absoluto, como se fosse um rio que fluísse sempre para frente e de maneira uniforme, seja qual fosse o ponto de vista – o tempo simplesmente passa.
Entretanto, no começo do século 20, o conceito de tempo, principalmente na física, mudou radicalmente. Para explicar novas descobertas e idéias, como o fato de a luz ser uma onda eletromagnética que viaja sempre na mesma velocidade de 300.000 km/s (1.080.000.000 km/h), independentemente de quem a esteja observando, Albert Einstein, o cientista mais importante do século passado, introduziu o conceito de que o tempo e o espaço não são coisas distintas, mas formam uma unidade e não são apenas o palco no qual ocorrem os eventos da natureza, mas também os protagonistas dessa história.
Ao postular que a velocidade da luz é a velocidade limite do universo, Einstein demonstrou que o tempo depende da velocidade com a qual nos movemos. Quando nos aproximamos da velocidade da luz o tempo flui mais vagarosamente. Para entendermos melhor, imagine que estamos viajando para um planeta distante a dezenas de anos-luz da Terra (um ano-luz tem aproximadamente 10 trilhões de quilômetros) e que a viagem foi feita com uma velocidade bem próxima à da luz. Quando voltamos da viagem, para as pessoas que ficaram na Terra se passaram dezenas de anos, mas para quem viajou se passaram apenas alguns meses.
Aceleradores de partículas e GPS
Esse efeito, conhecido como dilatação temporal, é uma conseqüência do fato de a velocidade da luz ser uma constante universal. Ainda não podemos realizar a experiência descrita acima com seres humanos, mas algo similar já é realizado com partículas atômicas. As máquinas chamadas de aceleradores de partículas, que chegam a custar bilhões de dólares, aceleram prótons e elétrons para velocidades muito próximas à da luz.
Essas máquinas funcionam com altíssima precisão, pois levam em conta os efeitos de dilatação do tempo. Todos os experimentos realizados até hoje comprovaram que a teoria da relatividade está correta. Einstein mostrou ainda que a gravidade também altera a passagem do tempo. Relógios atômicos como os que existem nos satélites utilizados no sistema GPS (sistema de posicionamento global, na sigla em inglês), que trabalham com precisão maior do que um nanossegundo, são calibrados para levarem em conta as diferenças de campo gravitacional da Terra devido à variação da altura da órbita desses satélites.
Dessa forma, vemos que o tempo é relativo a quem está medindo e não existe um tempo universal. O tempo não é apenas uma impressão dos nossos sentidos ou uma invenção humana, mas realmente existe e faz parte da natureza. Um novo tempo foi descoberto pelo homem e todos os seus mistérios ainda não foram desvendados
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A coluna Física sem Mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês pelo físico Adilson J. A. de Oliveira, professor da UFSCar

terça-feira, 18 de julho de 2006

A produção científica brasileira aumenta

Hoje a Folha de S. Paulo trás uma matéria sobre o aumento da produção científica brasileira apresentada pela CAPES na reunião da SBPC em Florianópolis. Passamos a responder por 1,8% da produção mundial e estamos em décimo-sétimo lugar. Ainda é pouco, mas o crescimento é devido principalmente ao fortalecimento de uma pós-graduação de alto nível há várias décadas.
Entretanto, a notícia da Folha mostra que o aumento recente foi devido a contribuição principalmente da pesquisa na área médica e que a física deixou de ser a área que mais publica. Do jeito que a notícia foi escrita fica a sensação que a física estacionou e a medicina cresceu. Vale a pena lembrar que a quantidade de doutores na área de física é na ordem de 4.000. Eu não sei quanto são na área de medicina, mas com certeza é bem maior que a de física. Segundo a notícia foi um maior rigor na avaliação dos programas de medicina que levaram a um aumento nas publicações. Será que os físicos sempre foram mais rigorosos que os médicos na sua avaliação?

A reportagem da Folha pode ser vista por assinanates neste endereço.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Blogs Científicos estão em Alta

A Agência FAPESP apresentou hoje uma reportagem feita a partir da divulgação da Nature sobre a "Blogosfera Científica" e mostrou que há uma interesse em utilizar esse tipo divulgação para ajudar a entender a Ciência. Como diz o autor do blog "Pharyngula", Phil Myers, professor da Universidade de Minnesota, "o blog é lugar para trocar idéias como se fosse em uma mesa de bar".
Veja os links dos cincos blogs sobre ciência mais acessados em um universo de 50 milhões:


A blogoesfera científica brasileira anda crescendo também. Infelizmente nesse quesito ainda estamos muito devagar. Os nossos irmãos lusitanos dão de dez a zero em nós. E para isso nem precisaram do Felipão para ajudá-los.

Fonte: Jornal da Ciência e Agência FAPESP 06/07/2006

sexta-feira, 23 de junho de 2006

A ciência pode explicar até o futebol?

Coluna Física sem Mistério
Ciência Hoje On-Line
23 de junho de 2006


O futebol é, sem dúvida, uma das maiores paixões dos brasileiros. Nesta época de Copa do Mundo todos param para assistir pelo menos aos jogos da seleção brasileira. Nos comentários das transmissões esportivas algo que costuma chamar minha atenção é o ditado popular segundo o qual “a teoria na prática é outra”. Quantas vezes já ouvimos que “em teoria” um time é imbatível e, conseqüentemente, é considerado campeão por antecipação? Como bem sabemos, isso nem sempre acontece. Um técnico pode ter a sua disposição excelente jogadores e um esquema tático infalível, mas nem sempre os melhores times vencem e perdem partidas decisivas para equipes que “em teoria” são mais fracas. Por que será que isso acontece?

Uma das respostas comuns é que “a teoria na prática é outra” e que o futebol não é uma ciência exata e, por isso, de difícil previsão. Podemos utilizar nossos conhecimentos sobre as leis de movimentos de corpos e descrever com absoluta precisão a trajetória da bola. Ao usarmos a fisiologia podemos determinar como está a condição física do jogador e estimar a possibilidade de ele alcançar um lançamento em profundidade. A psicologia poderá determinar o estado emocional do jogador e saber como ele reage perante a situações que ocorrem durante o jogo.

Contudo, mesmo aplicando todos esses conhecimentos, dificilmente poderíamos prever um “lance de craque”, como aquele de Ronaldinho Gaúcho ao marcar um gol contra a Inglaterra, batendo uma falta que encobriu o goleiro Seaman, na Copa do Mundo de 2002 na Coréia e no Japão.

Outros exemplos, não somente no futebol, mostram que nem sempre é fácil descrever o mundo que nos cerca. As situações práticas do cotidiano são complexas demais para serem descritas de maneira simples. O problema não é que “a teoria na prática é outra”, mas sim que nem sempre é possível determinar e controlar todos os fatores que interferem em uma determinada situação, principalmente quando estes são influenciados pela a vontade humana. É o caso do craque de futebol que, em uma fração de segundo, faz o inesperado e nos encanta com uma jogada inesquecível. Nesse caso, o jogador faz algo que logicamente não seria o esperado. Os comentaristas esportivos chamam isso de criatividade.

Modelos e previsões
Toda essa discussão nos remete ao fato de que algumas vezes a ciência parece não funcionar. Em particular as ciências chamadas de “duras” – como a física, a química, a biologia etc. – estão baseadas em modelos. Um modelo é um conjunto de hipóteses sobre a estrutura ou o comportamento de um sistema. No caso da física, por meio de modelos procura-se explicar ou prever as propriedades de um sistema - que pode ser tanto um átomo quanto o universo inteiro - a partir de alguns postulados básicos.

Normalmente, o primeiro modelo que se elabora é uma simplificação de uma situação complexa. Por exemplo, para a física descrever a trajetória da bola chutada pelo Ronaldinho Gaúcho, em uma primeira aproximação, é necessário apenas saber qual foi a velocidade da bola e o ângulo em que ela foi chutada. Com isso, pode-se prever que a trajetória da bola será uma parábola.

Contudo, essa aproximação pode não ser suficiente para de fato explicarmos como a bola conseguiu enganar o goleiro naquele lance. Para uma melhor descrição é importante também saber qual é a velocidade do vento, a pressão atmosférica e a temperatura do local, quanto a bola se deformou ao ser chutada e qual o sentido de rotação que ela adquiriu em torno de si após o chute. Além disso, esse lance não depende apenas dessas informações físicas. A condição fisiológica, mental e emocional e a intuição do jogador com certeza são fundamentais para o sucesso daquele lance.

A ciência é construída por meio de revolução em seus modelos. Há cerca de 2500 anos, na Grécia antiga, Aristóteles, um dos maiores pensadores da história, diria que a bola chutada pelo Ronaldinho Gaúcho percorreria uma linha reta e depois cairia bem atrás do goleiro, pois, segundo ele, quando se deixa de aplicar uma força em qualquer objeto, este tenderia a parar de se mover e voltar ao seu lugar natural, que é a superfície da Terra.

Galileu, no século 17, mostrou que, se um objeto não sofrer nenhuma influência externa, sua tendência é continuar em movimento. Ele diria, portanto, que a bola de Ronaldinho Gaúcho descreveria uma parábola perfeita (como de fato aproximadamente acontece). Isaac Newton, que nasceu exatamente no ano da morte de Galileu, em 1642, diria que a bola descreve esse movimento parabólico devido à ação da força da gravidade, que atrai qualquer corpo para a superfície da Terra e também é capaz de manter os planetas girando ao redor do Sol. Se Albert Einstein visse o gol, ele poderia dizer que a trajetória da bola é determinada pela curvatura do espaço provocada pela presença da massa da Terra, pois, segundo o seu modelo, a massa encurva o espaço, da mesma maneira que uma bola colocada sobre um lençol o encurva.

Uma criação humana

Todos esses modelos podem ser usados para descrever a trajetória de uma bola chutada por um jogador de futebol. A simplicidade ou a complexidade de cada um deles nos leva a diferentes descrições que podem (ou não) refletir a realidade. O mais importante de tudo isso é que não podemos esquecer que a ciência é uma criação humana como tentativa para entender o universo em que vivemos. Dessa forma, da próxima vez em que ouvirmos que “a teoria na prática é outra”, não devemos achar que a ciência e as teorias nunca funcionam, mas sim que os modelos que estamos utilizando talvez sejam incompletos ou simplistas demais. Contudo, o interessante é saber que, para fazer um “golaço”, o jogador de futebol não precisa saber nada disso. Precisa apenas deixar o seu talento fluir e a sua intuição agir. Afinal, o gol que encanta os torcedores também é uma forma de arte.

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A coluna Física sem Mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês pelo físico Adilson J. A. de Oliveira, professor da UFSCar

quinta-feira, 22 de junho de 2006

As Colunas estão de volta

Depois de escrever a última coluna para o AOL em março estava sem motivação para postar novos textos aqui. Entretanto, amanhã estarei estreando uma nova coluna no site http://cienciahoje.uol.com.br. A coluna se chamará "Física sem mistério". Estarei postando lá uma nova coluna na terceira sexta-feira de cada mês.
É claro que os textos também estarão disponíveis aqui no Blog.
Amanhã vocês já poderão ler o novo texto. Adivinhem sobre o que será...
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segunda-feira, 12 de junho de 2006

Morreu José Leite Lopes


Faleceu hoje, 12 de junho de 2006, aos 87 anos, na cidade do Rio de Janeiro, o Físico brasileiro José Leite Lopes. Perdemos mais um físico importante da geração que surgiu no pós-Guerra aqui no Brasil. Junto com o Schenberg, o Lattes e muitos outros, Leite Lopes deu uma contribuição importante para a Física, em particular o artigo de 1958, na Nuclear Physics, que previu a existência dos bósons responsáveis pela interações eletrofraca (a união da força eletromagnética com a força nuclear fraca). Vale lembrar a citação feita por Abdum Salam e Weinberg quando ganharam o premio Nobel, lembrando que o trabalho de de Leite Lopes foi pioneiro na explicação da origem da interação eletrofraca.
Foi também presidente da Sociedade Brasileira de Física e um dos fundadores do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas)
Tive a oportunidade de conhecê-lo no CBPF há 7 anos. Estava sempre lá, mostrando disposição e entusiasmo.

terça-feira, 9 de maio de 2006

Ultrapssamos as 10.000 visitas

Hoje o Blog está superando a marca de 10.000 visitas. Para mim é um excelente número. Nunca imaginei que após um ano e meio chegaria a essa marca.
Infelizmente não tenho colocado nada de novo há mais de um mês. O problema é pura falta de tempo, e não de motivação.
Estou construindo um site de divulgação científica mais amplo que estará em breve no portal da UFSCar. Será algo diferente do que existe por ai.
No momento, gostaria de agradecer os comentários e críticas. Sem dúvida essa experiência de "blogar" tem sido ótima. Saber que a minha inciativa tem incentivado outros colegas é realmente algo gratificante.
Essa semana vou para São Lourenço no Encontro Nacional de Física de Matéria Condensada e na volta estarei novamente colocando as minha idéias e opiniões no ar. Continuem visitando

quarta-feira, 29 de março de 2006

A Mecânica Quântica no Cérebro

Em um artigo que será publicado amanhã na Nature (30/03/2006) aparece um interessante ponto de vista a respeito da natureza da consciência. Alguns autores, como Roger Penrose, já apresentaram propostas para explicar a consciência a partir de processos de computação quântica que o nosso cérebro poderia fazer. Neste artigo da Nature os autores Christof Koch e Kalus Hepp defendem que tal idéia é desnecessária, pois devido aos processos bioquímicos e neurológicos seria absolutamente impossível manter-se estável um estado de coerência quântica. Para esses autores a neurobiologia dará conta disso.
Do meu ponto de vista a consciência é algo que ainda levará muito tempo para ser compreendida. Processos muito mais elementares ainda não temos a minímia idéia de como funcionam. Talvez com o avanço de técnicas de mapeamento do cérebro melhorá um pouco a nossa compreensão do funcionamento do que fato é a nossa essência. Entretanto, essa é uma área que ainda estamos apenas engatinhando.
Quem quiser ver o artigo completo, leia no link:

http://www.nature.com/nature/journal/v440/n7084/full/440611a.html

terça-feira, 21 de março de 2006

Sobre a Última Crônica

O Texto abaixo foi o meu último texto no AOL-Educação, pois o portal deixou o Brasil a partir do dia 17 de março.
Vou continuar escrevendo aqui e no Portal que a UFSCar, patrocionado pelo NANOFAEL (Núcleo de Excelência em Materiais Nanoestruturados Fabricados Eletroquimicamente) vai lançar sobre Divulgação Científica.
Teremos um espaço para colunas, notícias etc. Esperamos fazer algo diferente do que existe em outros sítios brasileiros.

Uma Última Crônica

Publicado no AOL-Educação em 10 de março de 2005

Escrever esse texto, o último a ser publicado neste site, para se despedir não é agradável. Afinal, desde março de 2004, foram 30 oportunidades de utilizar esse espaço para colocar as minhas opiniões e idéias sobre Ciência, em particular sobre a Física e a Astronomia. Espero que elas tenham alcançado os seus objetivos, ou seja, proporcionado uma leitura interessante e prazerosa para a maioria dos internautas. Espero que essas “crônicas” tenham sensibilizado algumas mentes e corações, motivando as pessoas a perceberem que a Ciência é algo maravilhoso e muito instigante e não apenas aquelas fórmulas maçantes que são apresentadas no Ensino Médio.

Quando falei sobre como a Ciência e os conhecimentos são construídos espero ter conseguido transmitir a idéia de que a Ciência nunca estará acabada ou terminada. Todas as verdades são sempre relativas e nunca absolutas. Sempre haverá algo além do horizonte a ser descoberto.

Ao discutir sobre como as coisas funcionam ou sobre como elas são feitas, tentei passar a noção de que muito do que usamos em nosso cotidiano é fruto da extraordinária viagem humana, que já dura milênios: A busca da descoberta e do entendimento da natureza. A utilização desse conhecimento, principalmente nos últimos 100 anos, levou a humanidade a um desenvolvimento sem precedentes, quando comparados a outros períodos da história. Contudo, a grande maioria das pessoas ainda não tem acesso aos conhecimentos gerados pela Ciência, bem como os benefícios que ela pode propiciar. É de fundamental importância estendê-los a todos. Para tal, o primeiro passo é apreciá-la e conhecê-la, mesmo que seja de maneira superficial. Espero que eu tenha conseguido passar isso para vocês.

Nas colunas que discuti sobre os objetos que estão nos céus, a principal motivação foi despertar o interesse em conhecer os segredos do Universo. Conhecer a sua imensidão e perceber o quanto a humanidade pode ser insignificante perante ele é importante para mostrar que somos limitados e que o nosso pequeno planeta azul é de fato uma jóia rara. Entretanto, é maravilhoso também saber que é possível conhecer, pelo menos parcialmente, o Cosmos. Quando discutimos sobre as galáxias que estão a bilhões de anos-luz e sobre eventos que aconteceram há bilhões de anos, temos a sensação de que, embora ainda não possamos navegar pelas estrelas, podemos, como diz Bilac, “ouvi-las e entendê-las”.

Falar sobre o espaço e sobre o tempo foi uma tentativa de trazer para perto do leitor um pouco das idéias do mais importante cientista do século XX. Discutir sobre as teorias de Einstein foi algo muito motivador, principalmente quando se comemorou um século das suas revolucionárias idéias.

Em algumas oportunidades, discuti um pouco menos de Física e me arrisquei em outro campo, o da Biologia. A idéia foi também mostrar que a Física está cada vez mais presente nessa disciplina contribuindo para ampliar os seus horizontes e ajudar a compreender o que é a vida.

A viagem pelo conhecimento é sempre fascinante. A Ciência, como um dos empreendimentos humanos mais bem sucedidos, está cada vez mais presente na nossa vida diária. Ter acesso a esse patrimônio da humanidade, mesmo que apenas parcialmente, é um direito de todos e condição para o exercício da cidadania.

Embora não nos encontraremos mais nesse site, espero que vocês continuem a ter interesse pela Ciência. Continuarei escrevendo no meu blog (www.pordentrodaciencia.blogspot.com) e em breve a UFSCar (www.ufscar.br), a universidade na qual trabalho, estará colocando no ar um site exclusivo para a Divulgação Científica. Lá vocês poderão continuar apreciando (ou desgostando) dos meus textos. As colunas, que daqui alguns dias desaparecerão desse mundo virtual, foram transformadas em textos mais detalhados e logo serão publicadas na forma de um livro, algo palpável e bem material, que embora não tenha o alcance da internet, não desaparece com um simples clique.

Gostaria de agradecer ao pessoal do AOL, que gentilmente sempre publicaram os meus textos, sem jamais apresentar qualquer objeção. Em particular ao Renato Delmanto, que incentivou esse trabalho, e a todos que fizeram com que ele se tornasse real no mundo virtual, em especial a Lílian que esteve cuidando disso nos últimos meses. Finalmente, agradeço a você leitor por ter mandado inúmeros comentários e e-mails a respeito desse trabalho. Até algum dia.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

A EXPLORAÇÃO DE NOVOS MUNDOS



Publicado no AOL-Educação em 21/02/2006


Há cerca de 500 anos a humanidade viveu a época das Grandes Navegações, na qual destemidos grupos de navegadores europeus lançaram as suas embarcações ao Oceano Atlântico para encontrar rotas de navegação que os levassem ao Oriente para poder ampliar o comércio de especiarias e seda. Eram apenas barcos de madeira que dependiam da vontade dos ventos para poder navegar. Essas expedições, perigosas e custosas, tanto do ponto de vista financeiro como humano, acabaram descobrindo muito mais do que o “Caminho para as Índias”, como era chamada a rota marítima para o atingir a Índia e a China, mas também levaram a descoberta de um "Novo Mundo", como foi chamada a América. Naquela época de poucos recursos técnicos, quando comparado ao dias de hoje, ocorreu a primeira grande exploração planetária realizada pelo Homem. Os feitos realizados pelos navegadores portugueses, por exemplo, foram imortalizados pelos versos de Camões no seu épico “Os Lusíadas”, o qual ressalta a grande viagem realizada por Vasco da Gama.

O principal guia para os navegantes daquele tempo eram as estrelas. A partir do conhecimento das constelações e da marcação do tempo era possível determinar a posição dos navios. Quando eles cruzaram o Equador e começaram a explorar o Hemisfério Sul foram identificadas novas constelações. Uma das mais famosas é ao do Cruzeiro do Sul. Outras constelações foram batizadas com nomes de objetos importantes para esses navegadores, como a constelação do Telescópio, da Bússola, do Sextante (instrumento utilizado navegação) etc.

Nos dias de hoje, as estrelas ainda são utilizadas para encontrar o caminho para novos mundos. Ao explorar o sistema solar, da mesma forma que os antigos navegantes, utiliza-se as posições das estrelas como guia para as espaçonaves. A denominação espaçonave significa "embarcação espacial". Para navegar no espaço sideral é necessário conhecer os caminhos das estrelas.

Os navegantes espaciais ainda realizam jornadas muito curtas, quando comparadas com as dimensões do sistema solar. As viagens mais longas realizadas foram as dos astronautas do programa Apollo, da Nasa, há cerca de 37 anos, quando pousaram na Lua. Foi como navegar por 12 metros no Canal da Mancha, que tem em sua parte mais larga 240 km.

Entretanto, atualmente as explorações de novos mundos são realizadas por navegantes que guiam as suas naus à distância de milhões de quilômetros. Desde das primeiras tentativas na década de 60 do século passado até as recentes sondas lançadas, como a “New Horizons” (Novos Horizontes) enviada pela Nasa em janeiro de 2006 para estudar Plutão - que fará uma viagem de aproximadamente 9 anos para atingir o seu objetivo - fantásticos descobrimentos têm ocorrido nessas jornadas. As solitárias espaçonaves nos mostraram mundos quentes o suficiente para derreter chumbo ou frios a ponto de transformar o oxigênio e o nitrogênio em líquidos e deixariam, com certeza, os navegantes do século XVI e XVII espantados.

Um das grandes questões do momento é a viabilidade da exploração espacial. Os custos dessa empreitada são enormes e somente poucos países têm o conhecimento e recursos para tal. Da mesma forma que os navegantes europeus guardavam como segredo de Estado as rotas de navegação para o Oriente, os países que dominam essas tecnologias não as repassam facilmente para outros. O Brasil ainda engatinha nessa área, que sem dúvida é estratégica para uma nação que pretende atingir um grau de desenvolvimento compatível com outras. Países como a China já enviaram as suas próprias espaçonaves para o espaço, inclusive enviando astronautas. O Brasil investe há vários anos no desenvolvimento de satélites de sensoriamento remoto e na construção de um veículo lançador de satélites, pois devido a nossa localização, próxima a linha do equador, é mais barato lançar satélites dessa posição. No final do mês de março o primeiro astronauta brasileiro irá para uma missão de uma semana na Estação Espacial Internacional, a qual o Brasil consta como um dos participantes da sua construção. Entretanto, a viagem ocorrerá a bordo da nave russa Soyuz e custará para o nosso país cerca de US$ 10.000.000,00. Durante a sua estadia na estação serão realizados alguns experimentos pelo nosso astronauta, entre eles o estudo da germinação de sementes em ambiente de baixa gravidade.

Essa viagem tem gerado muita polêmica, pois um investimento desse tamanho, para um país como o nosso, é muito grande e talvez com pouco retorno científico, uma vez que para o desenvolvimento de qualquer atividade científica é necessário continuidade, algo que não temos como garantia, pois não sabemos quando teremos novamente essa chance. O próprio diretor do CTA (Comando Geral de Tecnologia Aeroespacial) afirmou que o maior retorno será a visibilidade do programa espacial brasileiro, como foi reportado no jornal Folha de S.Paulo em 15 de fevereiro.

Independente da capacidade do astronauta, que já treina há vários anos na NASA, talvez o Brasil pudesse investir essa quantia em outras áreas mais importantes para o desenvolvimento da tecnologia espacial, ou mesmo da pesquisa científica. Fazer apenas uma viagem de 360 km acima da superfície da Terra possivelmente não mudará muita coisa se não houver de fato uma continuidade nessa jornada. Será apenas como molhar os pés na praia do imenso oceano cósmico.