sexta-feira, 25 de agosto de 2006

ICM 2006 - Quinto e último dia

Hoje além de apresentar os meus trabalhos, que são sobre o exótico magnetismo do Cr e suas ligas posso destacar dois trabalhos interessantes:

Eletrodeposição com aplicação de campo magnético.: Um caminho interessante de se produzir os famosos materiais nanoestruturados é pela via eletroquímica. No caso específico do trabalho do coreano Jun Hua Wu ele utilizou o campo magnético para induzir uma direção de crescimento preferencial para o material. Os resultados foram interessantes, pois ele conseguiu uma mudança importante na propriedade magnética do material (a anisotropia magnética).

Semicondutores magnéticos: Os materiais semicondutores são a base da eletrônica atual. Em particular um dos temas importantes de pesquisa na área de magnetismo é produzir esse tipo de material que além de manter as propriedades interessantes para eletrônica, ele possa vir a ser também um material magnético, para ser utilizado na spintrônica. O trabalho da pesquisadora espanhola M. C, Muñoz, de Madri, mostrou uma nova forma de compreender esse tipo de material, a partir de cálculos fundamentais.

Na sessão de encerramento da conferência, foi apresentado o novo local dessa Conferência, que será em 2009 em Karlsruhe, na Alemanha. Já foi decidido também que a ICM 2012 será em Vancouver, no Canadá, pois a presença dos pesquisadores da América do Norte foi muito baixa.

Espero ainda algum comentário sobre os meus relatos do Japão.
Estou voltando para o Brasil amanhã. Serão novamente 30 horas de viagem, mas domingo estarei em casa.

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Foi re-definido o conceito de planeta

Antes de dormir (afinal estou no Japão), recebi a notícia que foi aprovada pela União Astronômica Internacional , em sua reunião em Praga, decidiu rebaixar Plutão de categoria, definindo um o novo conceito de planeta.

A resolução chama de "planetas clássicos" os planetas de Mercúrio até Netuno.
É criada uma nova classe de objetos, chamados de "plutunianos", no qual Plutão é o paradigma.

É apenas uma mudança de classificação. Com certeza, Plutão não se incomodará.
mais detalhes no endereço http://www.iau2006.org/mirror/www.iau.org/iau0602/index.html.

É claro que para a Astrologia isso se torna um grande problema.....

ICM 2006 - quarto dia

Hoje assisti alguns trabalhos interessantes sobre nanopartículas. O estudo de nanopartículas magnéticas é uma das áreas mais ativas do magnetismo, pois elas estão relacionadas com o atual desenvolvimento tecnológico, principalmente na área de gravação magnética.
Um trabalho diferente foi o do T. Herrmannsdoerfer que utilizou uma bactéria como o substrato para produzir as nanopartículas, obtendo materiais magnéticos e supercondutores. Essa mais uma das típicas idéias que somente físicos vão ter.
Uma outra informação interessante: A conferência teve 2003 inscritos, sendo que 1000 são japoneses. A segunda maior delegação é coreana, depois seguida pela alemã. Foram apenas 86 americano, totalmente desproporcional ao peso que eles tem nessa área. Franceses e ingleses totalizaram 56 cada. Argentinos e portugueses apenas 2.
Os brasileiros totalizaram 25!!!!
Como alguns colegas brincaram, o custo da nossa partícipação não dá nem uma daquelas ambulâncias superfaturadas!!!
Faltou o ministro da Ciência e Tecnologia, o Prof. Sérgio Rezende, que devido a imprevistos de última hora não compareceu. Ele foi o chairmain dessa conferência quando ela foi realizada no Recife em 2000 (ICM 2000). Nesse link há um pouco da história do magnetismo no Brasil, escrito pelo Prof. Rezende

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

ICM 2006 - Terceiro Dia


Hoje foi o dia da magnetorresistência túnel (TMR) de novo. O grande astro desta vez será o óxido de magnésio (MgO) que já foi usado muitas vezes como substrato e agora ele parece ser uma barreira ideal. Já existem resultados que mostram TMR de mais de 400 % em temperatura ambiente. O Stuart Parkin, em sua palestra, mostrou que esse material será determinante para a nova geração de dispositivos de leitura magnética e de memória de acesso magnético. Ele que não é bobo já tem uma patente de um dispositivo como esse.

Na parte da tarde tivemos folga. Fui na excursão da conferência conhecer alguns lugares interessantes. Sem dúvida o melhor foi o templo Budista Kiyomizu-temple. Para conhecer um pouco deste lugar click aqui.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

ICM 2006 - Segundo Dia

Hoje fui ver um pouco de um tema que também anda quente nos últimos congressos da área:

"Exchange Bias". Este é um fenômeno que está relacionada com a interação de um material ferromagnético e antiferromagnético. Tem várias aplicações tecnológicas no momento, em particular nas cabeças leitoras dos discos rígidos. Assisti a palestra do Nogués que falou principalmente do efeito de vórtices magnéticos que surgem dependendo da direção do campo magnético aplicado.

Ainda no período da manhã as palestras do David Awschalon e do J. Wunderlich discutiram um efeito recente e importante em semicondutores: Spin Hall Effect. Esse é o efeito Hall aplicado no spin, ou seja, além de desviar a corrente elétrica devido a aplicação de campo magnético esse efeito também depende do spin, no caso de estruturas semicondutoras, como o GaMnAs e o ZnSe. O interessante foi uma imagem que ambos os palestrantes fizeram. Até 1996 se utilizava apenas a carga do elétron para controlar e manipular informações, aplicando-se campos elétricos e magnéticos. Em 2006 se utiliza além da carga o spin do elétron, aplicando campos magnéticos e elétricos. A previsão é que em 2016 se utilizará apenas o spin que seria manipulado apenas pela aplicação de campo elétrico.

Chamou também a minha atenção, no período da tarde, o trabalho do Dominique Givord (que sempre tem sacadas brilhantes). A proposta dele é manipular spins em metais (o que se consegue hoje é em materiais isolantes e semicondutores) pela aplicação de campo elétrico. parece que ele conseguiu, utilizando um truque eletroquímico.

Para terminar, entre os mais de 500 poster que são apresentados todas as tardes, em um deles eu descobri algo que nunca tinha me passado pela cabeça. Além do esperma do ouriço do mar sofrer orientação devido a aplicação de campo magnético, o esperma humano também se orienta da mesma maneira. Detalhe: o trabalho era de uma cientista do Barehen. Isso é típicamente uma coisa que somente um físico pensaria.

Amanhã conto algo novo, em particular por ser o dia do passeio da conferência por Kyoto.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

ICM 2006 - Primeiro Dia

A conferência começou hoje de fato. o Kyoto International Center é muito bonito e tem uma arquitetura futurista. Parece uma nave espacial.
As palestras de abertura, feita no impressionante salão principal, foram do J. Slonczewski e do Albert Fert.

Slonczewski falou de um tema que vai dominar a conferência. O efeito de corrente na direção do spin. Para os que não estão familiarizados com esse conceito, trata-se da observação do efeito de um campo elétrico em um material magnético. Isso seria um grande avanço na chamada spintrônica, pois poderia-se controlar simultaneamente o spin do elétron e a sua carga, com a combinação de campos magnéticos e elétricos. O Slonczewski já tinha previsto isso em 1996 e somente agora o efeito está sendo observado.
Ele apresentou um nome novo para isso "torkance", pois a direção do spin sofre um torque (uma força aplicada em uma determinada direção) devido a aplicação do campo elétrico, e como conseqüência, muda a resistência elétrica do material ( de fato a magnetorresistência túnel).

O Prof. Fert falou sobre as perspectivas futuras sobre a spintrônica, chamando atenção dos materiais que foram imaginados como promissores (segundo as previsões teóricas), mas que não se confirmaram experimentalmente. O grande problema é sempre a injeção de spin através de uma interface, que leva a perda de informação.As novas apostas são os materiais óxidos e as ligas de Heusler.

No período da tarde, assisti a seção exatamente sobre esse tema (Current induced magnetization reversal I) Foram duas palestras convidadas (D. Ralph, M. D. Stiles) . A conversa continou a mesma.

Por favor comentem.

sábado, 19 de agosto de 2006

Comentando a ICM - 2006 - A chegada

19/08/2006

A conferência ainda não começou, mas já deu para sentir a canseira. Depois de 25 horas de vôo e mais 7 horas de espera em Chicago, finalmente cheguei a Kyoto, que é, sem dúvida, uma cidade fascinante.
Amanhã no final da tarde e começo da noite (horário do Japão) tem apenas a festa de abertura.

Comentando a International Conference on Magnetism

Estou nessa semana em Kyoto no Japão participando da International Conference on Magnetism, que é a maior conferência sobre o tema. Estão presentes nela os principais expoentes do assunto no mundo. Em particular o tema que será quente esse ano, novamente, é a SPINTRÔNICA.
Vou fazer um relato diário dos principais acontecimentos que eu puder acompanhar pois existem muitas sessões paralelas.
Embora seja um assunto restrito, espero que pelo menos desperte um pouco da curiosidade de vocês. Vou tentar fazer como alguns fizeram quando estavam na Copa do Mundo, pois aqui é a Copa do Mundo de Magnetismo.
Como sempre, os comentários serão bem vindos.

O Caos e a ordem - Nova versão

Coluna Física Sem Mistério
Ciência Hoje On-line
18 de agosto de 2007

A vida em grandes metrópoles – como São Paulo, Tóquio, Nova York e Paris – apresenta uma série de vantagens que tornam essas cidades especiais. Nelas encontramos muitos dos atributos que consideramos sinônimos de progresso, como facilidades de acesso aos bens de consumo, oportunidades de trabalho, lazer, serviços, educação, saúde etc.

Por outro lado, em algumas delas, devido à grandiosidade dessas cidades e aos milhões de cidadãos que ali moram, existem muito mais problemas do que benefícios. Seus habitantes sabem como são complicados o trânsito, a segurança pública, a poluição, os problemas ambientais, a habitação etc. Sem dúvida, são desafios que exigem muito esforço não só dos governantes, mas também de todas as pessoas que vivem nesses lugares. Essas cidades convivem ao mesmo tempo com a ordem e o caos, com a pobreza e a riqueza, com a beleza e a feiúra.

A tendência das coisas a se desordenarem espontaneamente é uma característica fundamental da natureza. Para que ocorra a organização, é necessária alguma ação que restabeleça a ordem. É o que acontece nas grandes cidades: despoluir um rio, melhorar a condição de vida dos seus habitantes e diminuir a violência, por exemplo, são tarefas que exigem muito trabalho e não acontecem espontaneamente. Se não houver qualquer ação nesse sentido, a tendência é que prevaleça a desorganização.

Em nosso cotidiano percebemos que é mais fácil deixarmos as coisas desorganizadas do que em ordem. Quando espalhamos objetos pela casa, temos muito trabalho para colocarmos as coisas em ordem. Organizar é sempre mais difícil que bagunçar. A ordem tem seu preço.

Entropia

A existência da ordem/desordem está relacionada com uma característica fundamental da natureza que denominamos entropia. A entropia está relacionada com a quantidade de informação necessária para caracterizar um sistema. Dessa forma, quanto maior a entropia, mais informações são necessárias para descrevermos um sistema.

Para facilitar a compreensão desse conceito, podemos fazer uma analogia com algo bastante comum: cartas de baralho. Se inicialmente tivermos o baralho com as cartas organizadas de acordo com a sua seqüência e naipes, o nosso sistema (baralho) contém um certo grau de informação. Rapidamente descobrimos qual é a regra que está organizando as cartas.

Por outro lado, quando embaralhamos as cartas, bastam apenas alguns movimentos para que a seqüência inicial seja desfeita, ou seja, as cartas ficam mais desorganizadas. Para recolocá-las na ordem inicial, necessitaremos de muito mais informações a respeito da posição da carta (teremos que descobrir onde está o 5 de copas para colocá-lo após o 4 de copas). As cartas embaralhadas apresentam, então, uma entropia maior do que a das cartas organizadas.

A tendência do aumento da entropia está relacionada com uma das mais importantes leis da física: A segunda lei da termodinâmica. Essa lei mostra que, toda vez que realizamos algum trabalho, parte da energia empregada é perdida para o ambiente, ou seja, não se transforma em trabalho útil. Ao organizarmos as cartas, gastamos energia e, conseqüentemente, liberamos algum calor para o meio ambiente. A energia liberada ajudará a desorganizar as moléculas de ar ao nosso redor, aumentando a entropia ao nosso redor. Dessa forma, para diminuir a entropia de um determinado lugar é necessário aumentar a entropia em outro.

Embate Constante

A manutenção da vida é um embate constante contra a entropia. A luta contra a desorganização é travada a cada momento por nós. Desde o momento da nossa concepção, a partir da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, nosso organismo vai se desenvolvendo e ficando mais complexo. Partimos de uma única célula e chegamos à fase adulta com trilhões delas, especializadas para determinadas funções. A vida é, de fato, um evento muito especial e, até o momento, sabemos que ela ocorreu em um único lugar do universo – o nosso planeta.

Entretanto, com o passar do tempo, nosso organismo não consegue mais vencer essa batalha. Começamos a sentir os efeitos do tempo e envelhecer. Nosso corpo já não consegue manter pele com a mesma elasticidade, os cabelos caem e nossos órgãos não funcionam mais adequadamente. Em um determinado momento, ocorre uma falha fatal e morremos.

Como a manutenção da vida é uma luta pela organização, quando esta cessa, imediatamente o corpo começa a se deteriorar e rapidamente perde todas as características que levaram muitos anos para se estabelecer. As informações acumuladas ao longo de anos, registradas em nosso cérebro a partir de configurações específicas dos neurônios, serão perdidas e não poderão ser novamente recuperadas com a completa deterioração do nosso cérebro.

A entropia nos mostra que a ordem que encontramos na natureza é fruto da ação de forças fundamentais que, ao interagirem com a matéria, permitem que esta se organize. Desde a formação do nosso planeta, há cerca de cinco bilhões de anos, a vida somente conseguiu se desenvolver às custas de transformar a energia recebida pelo Sol em uma forma útil, ou seja, capaz de manter a organização.

Para tal, pagamos um preço alto: grande parte dessa energia é perdida, principalmente na forma de calor. Dessa forma, para que existamos, pagamos o preço de aumentar a desorganização do nosso planeta. Quando o Sol não puder mais fornecer essa energia, dentro de mais cinco bilhões de anos, não existirá mais vida na Terra. Com certeza a espécie humana já terá sido extinta muito antes disso.

O universo também não resistirá ao embate contra o aumento da entropia. Em uma escala inimaginável de tempo de 10 elevado a 100 anos (10 seguido de 100 zeros!), se o universo continuar a sua expansão, que já dura aproximadamente 15 bilhões de anos, tudo o que conhecemos estará absolutamente disperso. A entropia finalmente vencerá. Mas essa historia fica para um outro dia.