terça-feira, 21 de abril de 2015

Física e Contabilidade

Coluna Física sem Mistério
Ciência Hoje On-line
Publicada em 20/03/2015

Na época em que muitos brasileiros têm que acertar suas contas com o ‘leão’, Adilson de Oliveira mostra, em sua coluna de março, que há várias semelhanças entre os conceitos físicos e contábeis, embora essas ciências descrevam fenômenos bastante distintos.

Todos os anos, entre os meses de março e abril, quase 20 milhões de brasileiros têm uma tarefa que para muitos não é agradável: fazer a declaração de imposto de renda para ajustar as contas com o famoso ‘leão’. Durante o ano, quem ganha mais de 1.700 reais por mês tem descontada certa porcentagem a título de imposto de renda que pode chegar a 27,5%. A legislação brasileira permite que sejam abatidas anualmente do imposto de renda algumas despesas na área de saúde, educação etc. Quando fazemos a declaração de ajustes, verificamos se temos mais imposto a pagar (principalmente se tivemos mais de uma fonte de renda) ou imposto a restituir (se o que pagamos foi maior do que devíamos).
Como a declaração de ajustes do imposto de renda pode ser complexa em alguns casos, é muito comum as pessoas recorrerem aos contadores para ajudar nessa tarefa. Eu que já fui técnico de contabilidade antes de ser físico e aprendi bastante sobre a dinâmica desse processo, hoje não tenho problemas em fazer a minha declaração.
Pensando exatamente nessa tarefa de fazer a declaração deste ano, comecei a perceber que os conceitos utilizados na contabilidade são, de certa forma, semelhantes aos da física.
A contabilidade é uma ciência social que estuda as variações quantitativas e qualitativas ocorridas no patrimônio (conjunto de bens, direitos e obrigações) das pessoas físicas e jurídicas (empresas). A física, por outro lado, estuda a natureza e os seus fenômenos de forma geral.
As variações de patrimônio de uma empresa, por exemplo, ocorrem devido a processos e interações que ela realiza com o seu meio externo. Compram-se ou vendem-se produtos e serviços, fazendo com que o patrimônio se modifique, tendo lucro ou prejuízo. Da mesma forma, os sistemas físicos interagem entre si trocando matéria ou energia de forma que, ao final do processo, ocorram modificações do seu estado, também podendo ter ganhos ou perdas.


Depreciação e entropia

As variações de patrimônio também podem se originar de depreciações e valorizações dos bens que as empresas possuem. Por exemplo, quando a empresa faz um investimento em um equipamento de grande porte, os contadores denominam isso de ‘ativo imobilizado’. Gastar dinheiro nessa aquisição não é uma despesa direta da empresa, mas sim um investimento, que é amortizado com o tempo, ou seja, o seu custo de aquisição é deduzido do lucro ao longo de vários anos, tipicamente 10% ao ano, dependendo do tipo de bem adquirido. Esse processo de depreciação é natural, pois quando compramos um carro novo, pagamos certa quantia e, depois de três ou quatro anos, o valor de revenda é normalmente a metade do valor inicial, ou seja, depreciou-se o valor inicial.
Qualquer sistema físico se modifica com o passar do tempo. Se ele não for isolado do resto do universo, há uma tendência de ele ficar cada vez mais desorganizado, ou seja, se depreciar. As interações com o meio externo feitas de forma espontânea aumentam a entropia do sistema, como prevê a Segunda Lei da Termodinâmica. Para se voltar para um estado mais organizado, é necessário realizar um trabalho (transferência de energia) para que o sistema volte à sua configuração inicial. Da mesma maneira, para valorizarmos um patrimônio que possuímos, é necessário fazer um investimento (transferir dinheiro) para que ele volte a ter o seu valor inicial.


A Segunda Lei da Termodinâmica nos mostra que é impossível realizar um processo de transferência de energia que tenha 100% de eficiência, pois sempre uma parte da energia é perdida para o meio externo, na forma de calor. Também quando fazemos um investimento, por exemplo, nem sempre recebemos todos os lucros que ele gera, pois existe a cobrança de impostos sobre os ganhos financeiros ou é cobrada alguma taxa pelo banco ou corretora que faz a administração dos recursos.

Ação, reação, débito e crédito

Talvez a semelhança mais interessante entre a física e a contabilidade seja a relação entre o princípio da ação e reação derivado da 3ª Lei de Newton e o método das partidas dobradas.
O método das partidas dobradas consiste em fazer os lançamentos dos eventos contábeis em contas (daí vem o nome contabilidade), debitando ou creditando os valores que representam os eventos. Todo lançamento contábil gera simultaneamente um crédito e um débito de igual valor em contas diferentes, de tal forma que a soma final dos lançamentos em débito deve ser igual à dos lançamentos em crédito, fazendo com que a diferença entre eles seja nula. Por exemplo, quando uma empresa compra um bem (como um automóvel), o lançamento contábil aparece como um débito na conta ‘veículos’ e um crédito na conta ‘caixa’. Embora essa nomenclatura possa parecer estranha, o fato de a conta ‘veículos’ ter um saldo devedor significa que ‘ela deve’ para alguém aquele valor. Da mesma forma, um crédito na conta ‘caixa’ significa que ela tem um ‘crédito com alguém’, nesse exemplo, com a conta ‘veículos’.
O paralelo entre essa operação contábil e o princípio da ação e reação é que, quando aplicamos uma força sobre qualquer objeto, esse reage com igual intensidade (igual valor), mas em sentido contrário, de tal forma que a soma total das forças no par ação-reação é nula. Assim como não existe um par ação-reação em um único corpo, pois é necessária a participação de pelo menos dois corpos para que o princípio seja válido, não há lançamento contábil único de débito e crédito na mesma conta decorrente de um único evento.
Na física, o princípio da ação e reação está baseado em um princípio ainda mais fundamental, que é a conservação do momento linear. O momento linear (ou quantidade de movimento) corresponde ao produto da massa de um corpo pela velocidade com que ele se desloca. Como a força pode ser expressa como a variação do momento linear com o tempo, quando aplicamos uma força em outro corpo, para que exista a conservação da quantidade de movimento, deve surgir outra força de igual intensidade, mas em sentido oposto.
As semelhanças que apresentei entre duas ciências que, a princípio, são tão distintas – já que descrevem fenômenos de classes totalmente diferentes – talvez apareçam justamente porque ambas procuram medir o seu universo de atuação. A contabilidade, por meio de suas diversas técnicas de análise, apura a evolução do patrimônio e como ele se comporta diante dos eventos que ocorrem nas interações que empresas e pessoas físicas realizam dentro da sociedade, seja produzindo, comprando ou vendendo bens e serviços. A física descreve a natureza a partir de leis que são verificadas experimentalmente por medidas de grandezas físicas como força, energia, campo, etc, mostrando assim a evolução dos sistemas e corpos em estudo.
De fato, tanto a contabilidade quanto a física são ciências criadas pelo homem como uma forma de tentar descrever o mundo ao seu redor. A compreensão da natureza por esses diferentes aspectos nos permite entender o nosso papel, seja na sociedade seja no próprio universo.

Adilson de Oliveira
Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos

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