sábado, 13 de setembro de 2008

60 Usinas Nucleares em 50 anos!!!


Em diversos meios de comunicação foi noticiado que o Brasil irá construir nos próximos 50 anos 60 novoas usinas nucleares para suprir a demanda de energia que o país terá no futuro. Imagina-se em construir usinas com potência na ordem 1000 megawatts. Uma pergunta que surge: Será que esse deve ser o melhor caminho? Inúmeros países europeus, como a Alemanha, tem projetos de desativar as usinas nucleares e procurar outras formas de energia.
Eu não sou especialista no assunto, mas o meu ponto de vista é que a energia nuclear não deve ser uma opção para o Brasil aumentar a sua produção de energia. Devemos investir em tecnologias que desenvolvam fontes renováveis e com menos impacto ao meio ambiente. Vejam como pensa uma das maiores autoridades em energia nesse país, o Prof. José Goldemberg, em entrevista exclusiva para a Revista ClickCiência, na sua 8a. edição:

O MILAGRE NÃO VIRÁ DA ENERGIA NUCLEAR

Click Ciência – Como o senhor classificaria o atual cenário energético do Brasil e qual a importância atribuída à energia nuclear dentro desse cenário?

José Goldemberg
– Problemático, porque não estão sendo feitos investimentos suficientes em novas unidades geradoras de eletricidade. O país necessita de três a quatro mil novos megawatts de potência a cada ano e, se a economia deslanchar e crescer, mais energia será necessária. Energia nuclear representa, hoje, menos de 2% da geração de eletricidade, isto é, tem uma contribuição modesta.

CC
– Considerando o panorama da energia no mundo, com a crescente necessidade de se investir em energias renováveis, qual é, na sua visão, o melhor a ser feito - em termos de Brasil - para que o país adquira um cenário energético economicamente favorável?


JG
– Seguindo a tendência mundial, que é a de investir em energias renováveis (para evitar o aquecimento global com suas graves conseqüências), o Brasil deverá continuar a investir em hidroelétricas, energia eólica e biomassa, para geração de eletricidade.


CC
– No mesmo artigo o senhor fala sobre os empecilhos para que os países em desenvolvimento invistam na energia nuclear. Entre eles a questão da justificativa para a população do porquê investir em energia nuclear e não em necessidades mais urgentes. O senhor, então, acredita que o momento atual não é favorável para esse investimento em países em desenvolvimento como o Brasil? Quais os principais motivos?


JG
– Energia nuclear exige investimentos iniciais elevados e reatores nucleares levam, pelo menos, sete a dez anos para entrar em funcionamento. Por essa razão, iniciar a construção de usinas nucleares, hoje, não vai resolver o problema nos próximos três a quatro anos. Outros investimentos em geração de energia são mais baratos e levam menos tempo para entrar em funcionamento, como energia da cogeração de bagaço de cana usado nas usinas de álcool e açúcar.


CC
– Na sua opinião, considerando apenas a questão energética, é ou não importante para o País investir em energia nuclear? Por quais motivos? Esse investimento ainda é válido considerando que, por mais cuidados que se tome, essa alternativa energética não é tão segura?


JG
– Investir em energia nuclear não é prioritário no Brasil pelas razões citadas anteriormente. Além disso, ela é menos segura do que outras formas de energia e acidentes nucleares tendem a ser muito graves.


CC
– Quanto à segurança, há um impasse entre especialistas da área. Uns consideram a energia nuclear a forma mais segura de se gerar energia, já o senhor a considera menos segura do que outras formas. Quais são os perigos envolvidos na questão? Qual seria a solução?


JG
– Energia nuclear é considerada uma forma segura de gerar energia, porque consome pouco combustível (urânio enriquecido) de maneira que não depende das variações da precipitação hidrológica ou do suprimento de gás. Por outro lado, usinas nucleares são complexas e acidentes nucleares podem ser muito graves, porque espalham radioatividade em grandes áreas, como aconteceu em Chernobyl. Além disso, podem dar origem à proliferação de armas nucleares.


CC
– Como está o programa nuclear do Irã? Não é perigoso ter países como o Irã investindo no enriquecimento do Urânio?


JG
– Numa fase inicial, o Irã não tem ainda nenhum reator em funcionamento, mas está instalando o primeiro deles com o auxílio dos russos. Apesar disso, está desenvolvendo um programa de enriquecimento de Urânio, o que gera suspeitas que a finalidade do programa seja militar, ou seja, destinado a enriquecer Urânio para bombas atômicas. Para reforçar estas suspeitas, o Irã tem enormes reservas de gás, com o qual poderia gerar toda a eletricidade por muitos anos. Apenas rigorosas inspeções pela Agência Internacional de Energia Atômica poderiam evitar que o Irã seguisse o caminho das armas nucleares.


CC
– Com relação ao aquecimento global, o uso da energia nuclear pode ou não contribuir para reverter os efeitos do aquecimento? Se não, por quais motivos? Se sim, o senhor saberia precisar quais ações seriam necessárias para que isso ocorra? Em quanto tempo esse efeito seria sentido?


JG
– Ao gerar eletricidade, reatores nucleares praticamente não emitem gases responsáveis pelo “efeito estufa”, mas para construir o reator e enriquecer o urânio são consumidos combustíveis fósseis que emitem estes gases. Ainda assim, existem vantagens de usar energia nuclear para reduzir as emissões. Sucede que seriam necessários cerca de três mil reatores nucleares (e não, apenas, os 433 que existem hoje) para, de fato, reduzir as emissões de um fator significativo. A instalação de milhares de reatores ao redor do mundo – principalmente em países em desenvolvimento – vai aumentar as possibilidades de proliferação nuclear, que poderão usar urânio enriquecido ou plutônio para produzir armas nucleares.


CC
– Segundo estudo do Massachusetts Institute of Technology, publicado em seu artigo, para 2050 haverá um crescimento nuclear de pelo menos três vezes o que se gerava em 2003. Entretanto, o senhor diz que para alcançar esse nível seria necessário um crescimento sustentado anual de 8% durante 45 anos. Qual, então, seria a melhor projeção para o crescimento nuclear na sua visão?


JG
– Este cenário de crescimento ou, mesmo, outros que prevêem um crescimento mais moderado como o do MIT (Massachusets Institute of Technology) não são realistas. Energia nuclear crescerá de forma mais modesta e, as melhores e mais realistas projeções que existem são as da Agência Internacional de Energia Atômica, que projetam um crescimento de 50% da atual capacidade nuclear para o ano de 2030. Mesmo estas projeções são consideradas otimistas. O mais provável é que o número de reatores, no mundo, cresça menos do que isto, num futuro previsível.


CC
– No ano passado, o consumo total de energia elétrica no País somou 415.865 GWh (ou 415,9 terawatts-hora). Esse número é considerado baixo se comparado a outros países, como a Índia, que consumiu 679 TWh. Isso se deve ao fato de muitas pessoas também não terem acesso à energia elétrica. A energia nuclear terá algum papel estratégico para o aumento da distribuição, e consumo, de energia no País? Qual é esse papel?


JG
– O problema do acesso à energia elétrica está ligado à pobreza; a população mais pobre não tem acesso à energia ou consome “per capita” menos do que nos países industrializados. Como a energia nuclear contribui pouco para a matriz energética brasileira, não é ela que vai resolver esse problema.


A oitava edição da ClickCiência trata exatamente sobre a questão da energia no Brasil. Acessem para mais informações.


9 comentários:

  1. Com todo o respeito que o Professor Goldemberg merece, ele tentou ser conciso na última resposta e acabou com um non sequitur. Não há meios de saber, atualmente, se a geração de eletricidade por meio nuclear terá ou não um papel maior na matriz energética futura.

    Na verdade, usar como termo de comparação o consumo primeiro-mundista é um erro crasso: lá não se usa; se desperdiça. Temos que abandonar, de uma vez por todas, a "importação" de modelos que ou não se aplicam por uma questão de escala, ou não se aplicam por uma questão de prioridades no emprego de recursos.

    A menos que aconteçam enormes e revolucionários avanços na geração termoelétrica, há que se considerar a opção nuclear. Evidentemente, a proposta do Minsitro Lobão é um "factóide" sem a menor correlação com a realidade (aliás, a opção dele por montar uma termoelétrica a carvão no RS já é mostra suficiente de que o Ministro é uma besta!...)

    Mas não é só porque Lobão falou uma asneira que devemos descartar totalmente as usinas nucleares.

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  2. Olá João Carlos,
    Concordo com você do ponto de vista em investir em desperdiçar menos. Perdemos muita energia dessa forma.
    Agora, o que me chocou, foi o fato do ministro falar de algo que dificilmente se realizará, principalmente devido ao alto custo da energia nuclear. Além disso, engenharia nuclear, até onde eu sei, é uma área que temos poucos especialistas.

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  3. Quanto ao absurdo da declaração "factóide" do Ministro, estamos de pleno acordo (em que pese termos poucos, mas excelentes cientistas, engenheiros e afins na área nuclear).

    As experiências frustrantes com as usinas de Angra dos Reis e o malfadado acordo de cooperação e "transferência de tecnologia" (que nunca aconteceu...) com a Alemanha foram uma excelente "escola": tivemos que desnvolver a nossa própria tecnologia no setor. Portanto, existir, ela existe... Mas não está apta a esse "festival de usinas nucleares" que a toupeira do Lobão está tentando impingir...

    Existem muitas alternativas para a geração de energia e a nuclear certamente é uma delas, mas, também certamente, ela não será a principal - e, arrisco dizer, nem a mais desejável. De qualquer forma, é melhor do que uma usina a carvão...

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  4. Olá João,
    Concordo com você que precisa-se ter várias alternativas para geração de energia e, infelizmente, ainda vamos depender da energia nuclear. Também concordo que uma usina nuclear é muito melhor do que uma usina de carvão. Eu acho que o investimentos em usinas de fissão nuclear no Brasil será semelhante a investir na produção de carros antiquados, como foi o ressurgimento do Fusca na época do Itamar Franco.
    Precisamos é, sem dúvida, investir em novas maneiras de produção de energia.
    Apenas para completar sobre a declaração do ministro: Foi semelhante ao primeiro ministro da C&T do Lula: que era necessário o Brasil desenvolver bombas atômica!!!

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  5. Te encontrei no blog do Desambientado e como sou muito curiosa, vim até aqui... E gostei!!!

    A respeito da construção de usinas nucleares no Brasil, dá até medo de ouvir aquele infeliz falando... Me sinto uma estranha no ninho e fico aqui a me perguntar: não há mar com ondas nesse Brasil??? Não há ventos??? A geração de energia eólica produzida em Osório, no RS, abastece um enorme número de habitantes da cidade onde é gerada, até a capital e há lá apenas poucas unidades geradoras. No topo da serra do Rio do Rastro, em SC, há uma torre, somente e ela fornece sozinha energia para toda a rodovia e mais redondezas. Mas por certo que os "entendidos dos nossos políticos", sempre muito cultos e bem infromados, querem ser MODERNOS, ao invés de serem apenas MODESTOS!!! Só resta-nos contar que a ignorância e a ganância, acabe por falar mais alto e esqueçam as asneiras e manobras arriscas que costumam nos meter, sem nem ao menos permitirem que expressemos nossas opiniões...

    Parabéns pelo espaço e pelo complicado e requintado CV!!!

    Um abraço e bom final de semana!!!

    Cristina

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  6. Ah... Não sou da área e minha ignorância técnica é grande, mas com o desaparecimento das Sete Quedas em prol da maior hidrelétrica do mundo, o Brasil ainda assim continuará a construir elefantes brancos, mesmo depois daquelas aberrações em Angra??? Mas pensando bem, um bom lugar para serem construídas as 60 usinas (provavelmente sucateadas de alguma empresa falida em algum país de 1° mundo), é no quintal da grande "lona circense", em Brasília... Lá é o lugar ideal para a geração de energia nuclear!!! Afinal, todos eles já são mesmo uma grande bomba!!!

    Beijinhos pra ti!!!

    Cristina

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  7. Cristina,
    Obrigados pelos comentários.....
    Somente não entendi o que você quis dizer com o CV complicado (rsss)
    Concordo muito com você...
    Um abraço
    Adilson

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  8. Thomaz7:14 PM

    Olá Professor Adilson,


    Em primeiro lugar, parabéns pela iniciativa de criar um Blog sobre ciência!

    Com relação a última pergunta da entrevista, o consumo do Brasil não pode ser considerado baixo em relação ao da Indía, e na verdade o dado prova exatamente o oposto do que o entrevistador deseja. Afinal, a Índia possui uma população mais de 6 vezes maior que a brasileira, e um consumo (como dito na reportagem) pouco mais de 60% maior.

    Na verdade, o acesso a energia é muito pior na Índia que no Brasil.


    Além disso, o consumo no ano de 2007, de acordo com a Aneel, foi de cerca de 273.385.480 MWh, ou seja, cerca de 273,4 TWh, como pode ser visto em http://rad.aneel.gov.br/ReportServerSAD?%2fSAD_REPORTS%2fConsumidoresConsumoReceitaTarifaMedia-Regi%C3%A3o&rs:Command=Render


    Abraços!

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  9. Anônimo4:55 PM

    eu acredito que uma usina das ondas seria um bom investimento ! não polui o meio ambiente...

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