sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Novamente, os problemas com orientações


Publicado no AOL-Educação em 30/09/2005

http://educacao.aol.com.br/colunistas/adilson_oliveira/0026.adp

Há seis meses publiquei nesta coluna o texto “Navegar é preciso, mas é necessário conhecer os oceanos” (http://educacao.aol.com.br/colunistas/adilson_oliveira/0019.adp - 29/03/2005), sobre algumas explicações científicas encontradas em “sites” e livros que embora pareçam lógicas, são equivocadas. Em particular, chamava a atenção para o caso dos pontos cardeais, que comumente são explicados a partir da fórmula de apontar o braço direito para o lado que o Sol nasce, pois esse seria o leste. Como conseqüência, teríamos o norte a nossa frente, às costas o Sul e o braço esquerdo apontaria o oeste.

Para a minha surpresa a última prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) realizado no dia 25 de setembro apresentou uma interessante questão, a qual transcrevo abaixo:

“ Leia o texto abaixo:

O jardim de caminhos que se bifurcam

(....) Uma lâmpada aclarava a plataforma, mas os rostos dos meninos ficavam na sombra. Um me perguntou: O senhor vai à casa do Dr. Stephen Albert? Sem aguardar resposta, outro disse: A casa fica longe daqui, mas o senhor não se perderá se tomar esse caminho à esquerda e se em cada encruzilhada do caminho dobrar à esquerda.

(Adaptado. Borges, J. Ficções. Rio de Janeiro: Globo, 1997. p.96.)

Quanto à cena descrita acima, considere que

I - o sol nasce à direita dos meninos;

II - o senhor seguiu o conselho dos meninos, tendo encontrado duas encruzilhadas até a casa.

Concluiu-se que o senhor caminhou, respectivamente, nos sentidos:

(A) oeste, sul e leste.

(B) leste, sul e oeste.

(C) oeste, norte e leste.

(D) leste, norte e oeste.

(E) leste, norte e sul.

(fonte: http://200.130.77.86/enem/prova.htm)

O gabarito da prova indica que a alternativa correta é a (A). Se considerarmos que o Sol sempre nasce no leste e se põe no oeste de fato o proposto está correto. Contudo, como discutimos anteriormente, isso somente ocorre em datas especiais no dia que começa a primavera e o outono. Para latitude da cidade de São Paulo, por exemplo, o Sol chega a se deslocar mais de 25 graus ao norte (no início do inverno) e 25 graus ao sul (no início do verão).

O fato do Sol não nascer no leste e não se pôr no oeste todos os dias está associado ao fenômeno das estações do ano. O eixo de rotação da Terra está inclinado em cerca de 23 graus em relação a direção perpendicular ao plano de sua órbita (veja também http://educacao.aol.com.br/colunistas/adilson_oliveira/0014.adp - 16/11/2004). Dessa forma, conforme a Terra move-se ao redor do Sol ao longo do ano, os seus hemisférios ficam mais (ou menos) iluminados, tornando o caminho que o Sol percorre no céu mais longo (ou mais curto) dependendo da estação do ano. Observa-se que os dias são mais iluminados no verão e menos no inverno.

O fato mais espantoso de tudo isso é ter sido proposta uma questão no Exame Nacional do Ensino Médio, que tem como objetivo avaliar a qualidade do Ensino Médio brasileiro, que não tem o menor sentido, pois um estudante que dominasse corretamente o conceito não encontraria nenhuma resposta correta, pois para que a questão tivesse validade deveria ter sido informada a latitude, a longitude e a data que a situação estava ocorrendo. Percebe-se que a resposta não é trivial.

A sensação que fica é que a questão tinha como objetivo avaliar um determinado conhecimento sobre a localização dos pontos cardeais. Contudo, o procedimento apresentado, muitas vezes difundido nos livros didáticos e “sites” da Internet, é totalmente equivocado. As civilizações Antiguidade, como a egípcia, jamais utilizariam esse tipo de abordagem para se orientar. Se os navegadores espanhóis e portugueses dos séculos XVI e XVII se orientassem seguindo esses conceitos, como apresentado nessa questão do ENEM, jamais teriam alcançado a América ou o Brasil teria sido descoberto.

Infelizmente, ainda estamos ensinando (e cobrando) erroneamente conhecimentos já estabelecidos há 3.000 anos e utilizados com grande sucesso pelos nossos antepassados. Nesse aspecto, precisamos caminhar muito ainda para alcançar o século XXI.

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