quarta-feira, 30 de março de 2005

Navegar é preciso, mas é necessário conhecer os oceanos

Artigo publicado no AOL-Educação em 29/03/2005
http://educacao.aol.com.br/colunistas/adilson_oliveira/0019.adp

Os meios de comunicação disponíveis atualmente permitem o acesso a uma enorme quantidade de informações. Além de jornais, revistas, televisão etc, a internet é atualmente a ferramenta mais poderosa para encontrarmos rapidamente o que desejamos saber. Muitos dos leitores dessa coluna chegam até ela por meio da utilização de ferramentas de busca, na qual se digita uma “palavra chave” e em instantes obtemos dezenas de endereços sobre determinado assunto.

Para muitos estudantes, fazer uma pesquisa escolar é procurar o assunto na internet. Contudo, nem sempre as informações encontradas são de conteúdo confiável. O fato de uma informação estar publicada em um “site” não significa que esta esteja correta. Um dos grandes desafios da educação para o século XXI será formar indivíduos que possam compreender e utilizar as informações da melhor maneira possível e não simplesmente aceitá-las. É fundamental sempre questionar os conhecimentos que nos são passados.

Nesta coluna vou citar dois exemplos de explicações científicas para fenômenos do cotidiano encontradas em “sites” e livros, que embora pareçam absolutamente lógicas elas são equivocadas.

O primeiro exemplo é sobre os pontos cardeais. Nas primeiras séries do ensino fundamental os professores começam ensinar as crianças algumas noções de Astronomia, em particular, sobre o Sol, a Lua, os planetas etc. A noção de localização é um conceito fundamental para o entendimento dos movimentos dos corpos celestes. Em muitos livros didáticos (e “sites”) ensina-se uma maneira "simples" de se localizar as direções Norte-Sul e Leste-Oeste. A fórmula é apontar o braço direito para o lado que o Sol nasce. A nossa frente indicará o Norte, as costas o Sul e o braço esquerdo o Oeste.

As crianças aprendem facilmente esse conceito, mas infelizmente está totalmente errado. A idéia parece boa e funcionaria bem se Sol nascesse no mesmo lugar todos os dias. Entretanto, isso não é verdade. Basta lembrar simplesmente que no Verão os dias são mais iluminados (por esse motivo temos o horário de Verão) e no Inverno menos. Isso acontece porque o caminho que o Sol faz no céu e maior no verão e menor no inverno. Em apenas dois dias por ano o Sol nasce e se põe no Leste e no Oeste, respectivamente. Isso acontece no dia do início da primavera e do outono. Por esse motivo essas datas são chamadas de equinócios (dias iguais).

Ao longo do ano a posição no horizonte do nascer e pôr do Sol se afasta do Leste (e do Oeste) ora para o Norte, ora para o Sul. O ângulo dessa amplitude depende da latitude do observador. No Equador é de 46 graus e nos círculos polares é de 180 graus.

Há mais de 3000 anos atrás os egípcios sabiam como determinar os pontos cardeais com absoluta precisão. Eles utilizavam um simples instrumento chamado de "gnomon", que consiste em uma haste colocada perpendicularmente a superfície plana. O procedimento é simples. Escolha um lugar onde a luz solar incida em boa parte do dia. Deve-se fazer um círculo tendo como centro a base de uma haste e com o diâmetro igual a metade da altura da mesma. Marque os pontos em que a ponta da haste projete sombra no círculo. Uma das marcas deve ser feita na parte da manhã e a outra na parte da tarde. A reta que une essas duas marcas é a direção Leste-Oeste. Perpendicular a esta teremos a linha Norte-Sul.

O outro exemplo é sobre o funcionamento do forno de microondas, muito comum atualmente na maioria das casas. A explicação para o seu funcionamento, também apresentada em muitos livros didáticos e “sites” é que ela aqueceria os alimentos a partir do efeito de ressonância das microondas nas moléculas de água, fazendo com que estas vibrem aquecendo o alimento. Contudo, a freqüência típica utilizada pelos fornos de microondas comerciais e na faixa de 2.450 MHz (dois bilhões e quatrocentos e cinqüenta milhões de oscilações por segundo), que equivale a uma radiação com comprimento de onda de aproximadamente 12,2 cm. No entanto, esta freqüência não é nenhuma das freqüências de ressonância da água.

De fato, se essa freqüência fosse a de ressonância da água não haveria penetração da radiação e o corpo seria aquecido apenas na superfície, exatamente o efeito oposto que observamos no forno de microondas. O cozimento de alimento ocorre pela absorção da energia das microondas pelo corpo e o comprimento da radiação sendo de aproximadamente 12 cm faz com que esta penetre na maioria dos alimentos. Por esse motivo os fornos de microondas tem pratos giratórios (que tem tipicamente 30 cm de diâmetro) permitindo aquecer os alimentos uniformemente.

Haveria muitos outros exemplos que poderiam ser citados, mas esses dois são típicos de conhecimento geral para a maioria dos leitores e as explicações estão muito difundidas em livros e “sites”. Navegar pela internet pode nos ajudar muito, mas é necessário tomar cuidado, pois nesse “oceano” existem algumas “ilhas” que podem nos deixar ainda mais perdidos.

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