sábado, 16 de junho de 2007

A verdadeira crise nas universidades

Faz algum tempo que não volto ao assunto de práticas não científicas. Esse tema é sempre polêmico e muitas vezes as pessoas acabam levando para o lado pessoal. Resolvi discutir isso um pouco na minha coluna mensal no Ciência Hoje on-line (reproduzida abaixo), enfatizando a Astrologia, por dois motivos:

O primeiro é que na UFSCar, minha universidade, considerada uma das melhores do Brasil, principalmente por causa da pesquisa de alto nível que é realizada lá, está havendo a promoção de uma série de palestras sobre "criacionismo", promovida pelo curso de Pós-Graduação em Fisioterapia (considerado o melhor do Brasil). Embora a idéia seja a contraposição entre o criacionismo e a teoria da evolução, haverá 3 palestras seguidas sobre o tema criacionismo primeiramente. A diversidade de idéias é sempre interessante, entretanto, no meu ponto de vista, não devemos misturar alhos com bugalhos, ou seja, contrapormos ciência com crenças, ficando uma discussão sem ser produtivas, pois os criacionistas não aceitam os fatos incontestáveis no qual a evolução se apóia e também não conseguem mostrar consistência nas suas idéias baseadas mais em sentimentos do que em fatos.

O outro ponto é por saber que a UnB (Universidade de Brasília) há um núcleo no qual promove cursos sobre astrologia entre outras coisas. Um curso sobre o tema está terminando de acontecer lá. Veja por exemplo esse endereço sobre a visão de astrologia, inclusive divulgada pela assessoria de imprensa da UnB.

A liberdade de pensamento e expressão na Universidade deve sempre ser preservada. Entretanto, essa liberdade não pode ser confundida com falta de responsabilidade, pois a universidade pública brasileira representa muito para a nossa sociedade. Institucionalmente divulgar pseudociências e promover esse tipo de atividades é algo sério e talvez represente a verdadeira crise nas universidades.

A verdadeira influência dos astros

Coluna Física sem mistério
Publicada no Ciência Hoje On-line
15/06/2007

O céu noturno, quando a Lua não está presente, é sempre uma visão maravilhosa. Se tivermos sorte de estar em um lugar pouco iluminado e sem poluição, como ainda é o caso em algumas localidades no interior do Brasil, podemos ver, em uma única noite, milhares de estrelas. No alvorecer da consciência humana, há milhares de anos, aprendemos a olhar para o alto e nos impressionar com as estrelas. Aqueles pequenos pontos de luz, de diferentes tamanhos e cores, dia após dia estimulavam a curiosidade de indivíduos que, embora sem entender o porquê daquele espetáculo, contemplavam e indagavam se aquilo influenciaria de alguma forma suas vidas.

Tamanha beleza somente poderia ter origem divina. As constelações, o nome que se dá aos agrupamentos de estrelas, eram vistas de diferentes maneiras para cada povo. Alguns enxergavam em sua disposição animais, monstros e seres mitológicos. Outros viam objetos do seu cotidiano e divindades das suas crenças.

Contudo, as estrelas que constituem uma constelação não têm nenhuma ligação física entre si. A estrela Alfa-Centauri, por exemplo, a mais brilhante da constelação do Centauro (figura mitológica grega meio homem, meio cavalo), está a 4,4 anos-luz (41 trilhões de quilômetros) de distância da Terra. Já a segunda estrela mais brilhante (Beta-Centauri) está à distância de 525 anos-luz.

Além disso, todas as estrelas da Via-Láctea se movimentam, girando em torno do centro dessa galáxia. O Sol, por exemplo, completa uma volta a cada 250 milhões de anos. Portanto, as constelações, por mais bonitas que nos pareçam, são apenas figuras que queremos enxergar nos céus – uma configuração momentânea, diferente das que existiram no passado e de outras que haverá no futuro, um reflexo dos nossos sentimentos, medos e crenças.

Na Antigüidade também se observavam alguns pontos luminosos que caminhavam perdidamente entre as constelações. A eles atribuímos atualmente o nome planeta , palavra que tem origem grega e significa “errante”. Os gregos, em particular, batizaram os planetas com os nomes das suas divindades mais importantes, designações que mantemos até hoje.

Plantando e colhendo previsões nas estações
Devido à periodicidade dos movimentos celestes foi possível aprender a fazer previsões dos seus movimentos. Em particular, o período de um ano é definido pelo tempo que o Sol leva para retornar a uma mesma posição no céu em relação às constelações. O movimento do Sol no céu, que na verdade é decorrente do movimento da Terra ao seu redor, determina as estações do ano.
Dessa maneira, conhecer precisamente o início das estações do ano permite planejar plantios e colheitas. No Egito antigo, por exemplo, o cultivo às margens do Nilo era definido em função das cheias anuais do rio, que podiam ser previstas pelas observações dos astros – um segredo guardado pelos sacerdotes. Eles sabiam que as cheias começavam quando a estrela Seped, conhecida hoje como Sírius – a mais brilhante do céu –, aparecia antes do amanhecer.

Por volta de 3000 a.C., os mesopotâmios e babilônios, que viveram no vale dos rios Eufrates e Tigres, no atual Iraque, acreditavam que os movimentos dos planetas, do Sol e da Lua afetavam a vida dos reis e das nações. Nascia então a astrologia. Quando os babilônios foram conquistados pelos gregos, essa crença se espalhou de forma gradual pelo resto do Ocidente.

No século 2 a.C. esse conhecimento alcançou grande disseminação e se incorporou ao cotidiano da maioria dos povos. Muitos acreditavam que a configuração dos planetas no céu no momento do nascimento das pessoas definia aspectos da sua personalidade bem como de seu destino.

Esse tipo de astrologia, conhecida como astrologia natal (que faz os horóscopos), teve seu apogeu quando o astrônomo grego Claudius Ptolomeu (85-165 d.C.) publicou o livro Tetrabiblos , que representa até hoje a base da astrologia. Jornais, revistas, portais de notícias, programas de rádio, televisão etc. costumam apresentar previsões astrológicas (quase sempre muito genéricas) sobre o comportamento das pessoas a partir do estudo das posições das estrelas e planetas. Será que isso é de fato algo em que se pode confiar?

Astrologia e astronomia
A astrologia precedeu a astronomia no estudo e observação do céu. A diferença fundamental entre elas é que a astronomia é a ciência que estuda os movimentos dos astros e procura compreender a sua causa com base nas leis físicas. A astrologia relaciona a posição dos planetas em relação às constelações do zodíaco e tenta correlacioná-las com o destino e com as tendências humanas. Contudo, ela não explica as causas por trás dessa relação e suas previsões não podem ser verificadas. Por isso é possível afirmar que a astrologia é uma pseudociência, ou seja, se apresenta como uma atividade científica, mas não a é.

A prática astrológica mais popular é baseada no chamado signo solar, que considera a posição do Sol em relação a uma região do céu de 30 graus, na eclíptica, que representa o caminho que esse astro faz através das constelações. O signo é definido por essa região, chamada casa zodiacal e associada a uma das 12 constelações do zodíaco (como Touro, Aires, Capricórnio etc).

No entanto, em seu caminho o Sol passa anualmente por 13 constelações, e não 12 (a constelação extra se chama Ofiúco, na qual o Sol transita entre 30 de novembro e 17 de dezembro). Para refletir a realidade dos astros, portanto, o horóscopo teria que conter 13 signos e não apenas levar em conta aqueles definidos pelos povos antigos há quase 2 mil anos.

De acordo com essa definição, quem nasce entre o dia 22 de dezembro a 20 de janeiro será do signo de Capricórnio. Entretanto, devido ao movimento de precessão, semelhante ao que faz um pião balançar quando começa a perder velocidade de rotação, o eixo de rotação da Terra se modifica ao longo do tempo, completando uma volta a cada 25.770 anos. Com o passar dos séculos, esse fenômeno acabou modificando nossa visão das constelações.

Há 2 mil anos o Sol passava pela constelação de Capricórnio na época do ano delimitada no horóscopo. Atualmente, no entanto, no período entre 17 de dezembro e 18 de janeiro ele passa pela região da constelação de Sagitário. Como explicar então a influência dos astros sobre a vida da pessoa que nasce nesse período? Essa discrepância vale também para todas as outras constelações, ou seja, todas as datas estão equivocadas .

Mais argumentos
Haveria ainda muitos outros pontos questionáveis quanto à validade científica da astrologia, como por exemplo a possível influência de outros astros do Sistema Solar que ela não leva em conta, como os milhares de asteróides, cometas, meteoróides etc. E como ficaria o caso de Plutão, considerado um planeta desde sua descoberta, e que em 2006 passou a ser considerado um planeta-anão, ao lado de centenas de outros corpos celestes do Cinturão de Kuiper?

Além disso, depõem contra a astrologia o fato de gêmeos idênticos terem comportamentos diferentes, as grandes diferenças nos horóscopos traçados por astrólogos diferentes para os mesmos dados de nascimento, entre outros. Talvez o argumento mais contundente, em minha opinião, seja a falta de um modelo consistente para explicar de que forma e por meio de qual interação ou força os astros influenciariam o destino e a personalidade das pessoas.

Talvez as posições das estrelas no céu realmente influenciem as pessoas. A sensação de olhar para elas e contemplar toda a beleza de um céu estrelado realmente toca no fundo da alma da maioria das pessoas. Sem dúvida esta é a maior influência que elas exercem sobre nós – que o digam os poetas, pintores e compositores.

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A coluna Física sem Mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês pelo físico Adilson J. A. de Oliveira, professor da UFSCar

domingo, 3 de junho de 2007

Está no ar a 6a. edição da Click Ciência

Está no ar a 6a. edição da Click Ciência. Nessa edição o tema foi a mulher na Ciência. Há depoimentos interessantes sobre mulheres que trabalham com Ciência e como elas conseguem conciliar as suas carreiras com o trabalho de cientista.

Vejam o Editorial da Edição desse mês.

Muito longe de querer fazer uma apologia ao feminismo, a sexta edição da revista Click Ciência dedica-se muito mais a traçar um panorama da participação da mulher na ciência, do que a traçar suas conquistas. A idéia desta edição surgiu em uma conversa com um dos professores fontes da reportagem, que nos informou sobre uma mudança que estava ocorrendo com respeito à participação da mulher, na ciência dos Estados Unidos.

Na Reportagem, não nos limitamos a descrever essa mudança, mas fizemos uma abordagem a mais. Nos textos dessa seção o leitor terá conhecimento de como foi o crescimento da atuação da mulher na ciência e de como é a participação delas nessa área nos dias de hoje. Na reportagem Profissão e família, um panorama da realidade vivida hoje por muitas mulheres que optam pela carreira científica e as discriminações ainda vivenciadas em pleno século XXI.

O terceiro texto da seção Reportagem fala sobre como as diferenças biológicas e as influências sociais podem explicar as diferentes habilidades de homens e mulheres. A redação da revista digital Click Ciência foi em busca de uma resposta para uma pergunta que a intrigava: A biologia explica o porquê alguns espaços acadêmicos são mais habitados por homens e outros por mulheres?

A entrevistada do mês é uma professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (SP), em São Carlos, Yvonne Primerano Mascarenhas. Nesta entrevista para a revista Click Ciência, Yvonne fala das dificuldades que a mulher, quando deseja obter sucesso na profissão, enfrenta; das mudanças no perfil das mulheres; e de que forma a igualdade entre os sexos está se dando.

Na seção Artigos, Hildete Pereira de Melo, professora da Universidade Federal Fluminense, traz em seu artigo uma reflexão sobre a batalha das mulheres para ter acesso à educação, que segundo a autora, está quase esquecida diante da possibilidade atual de todas se educarem e da crescente participação feminina nas escolas de todos os graus. Nos lembra das áreas onde a conquista da inclusão feminina é mais lenta, e nos traz algumas possíveis para a questão: já que não há mais nenhuma discriminação legal, por que as mulheres cientistas ainda são tão minoritárias, e qual a razão de tão poucas ocuparem posições relevantes no sistema científico e tecnológico?

Na mesma seção, Jacqueline Leta, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, traz em seu artigo um panorama da participação da mulher na ciência em países que têm fortes tradições científicas, como França, Alemanha e Estados Unidos. Nele a autora ressalta as diferenças existentes entre homens e mulheres. Posteriormente Jacqueline nos leva a conhecer o panorama da ciência no Brasil, as diferenças entre gêneros que aqui existem e as discussões feitas no ambiente científico, como em relação a forma que homens e mulheres são avaliados e ascendem na carreira.

Em Colunistas, Roberto Baronas traz uma discussão sobre um tema que está em pauta não apenas entre os lingüistas, como também na mídia. O assunto faz referência à pesquisa publicada recentemente pelo antropólogo Daniel Everett. Nela, Everett, após estudar a língua Pirahã do Sul do Amazonas, parece colocar fim no longo período de estabilidade do paradigma chomskyano. Esse paradigma, melhor explicado no texto do colunista, prevê a existência de uma gramática universal comum a todas as línguas da humanidade. Segundo Baronas, se os argumentos de Everett, os seus "feitos heróicos" se confirmarem, os postulados de Chomsky estariam entrando em um período de crise para em seguida sofrerem uma profunda mudança.

A colunista Márcia Tait traz na edição seis da revista uma discussão sucinta sobre como muitas pesquisas podem ser influenciadas por valores, que têm sua origem na crença na superioridade da natureza masculina. Márcia dá alguns exemplos dessa idéia. A colunista também aborda um outro aspecto da mulher na ciência: a sua participação, crescente, mas ainda não em iguais condições como pesquisadoras.

Silvio Dahmen descreve a história de duas cientistas que enfrentaram a discriminação por deixar os papéis a elas impostos pela sociedade e buscar seguir suas aptidões. A primeira é Hypatia, em Alexandria, filha do filósofo Theon. Segundo a história, ela alcançou tão grandes feitos em literatura e ciência que esses acabaram por ofuscar todos os filósofos de sua época. A segunda é Maria Salomea Sklodowska (1867-1934), conhecida como Madame Curie, sobrenome que adquiriu pelo casamento com o também físico francês Pierre Curie. Segundo o colunista os feitos de Madame Curie são impressionantes: foi a primeira mulher a se tornar professora na Sorbonne e a primeira pessoa a ganhar dois prêmios Nobel.

Adilson de Oliveira relata a história de Galileu e de suas idéias, que revolucionaram nossa forma de pensar e olhar a natureza. Fala também do medo que temos da verdade, que em muitos casos é fruto da nossa ignorância. Para explicar esse medo, Oliveira nos leva até a Grécia antiga com os filósofos como Tales de Mileto, Hiparco, Aristóteles entre outros, que procuravam entender a ordem do cosmos.

E como a edição fala da mulher na ciência, na seção Resenhas indicamos um filme que trata exatamente da condição da mulher na década de 50. O filme retrata a mulher e seus anseios em uma época em que o seu papel, segundo os costumes, era restrito a cuidar da família. O Sorrido de Monalisa relata a escolha da mulher em buscar o seu autodesenvolvimento ou se casar.


O tema desta edição é bastante polêmico, pois até mesmo entre as mulheres, há quem acredite que tratar temas como esse, ou seja, abordar a "mulher na ciência", já seja um ato de discriminação. Entretanto, em nenhum momento a revista Click Ciência se julga discriminatória. O objetivo é sempre divulgar a ciência e quem a faz em nosso país. Até mesmo no texto que descreve algumas diferenças biológicas entre homens e mulheres, acreditamos estar colaborando para divulgar os conhecimentos que a ciência já foi capaz esclarecer e que serão importantes para os seres humanos na medida em que podemos nos conhecer cada vez mais. Boa leitura!

As estrelas ficaram ainda mais distante para os brasileiros

Na edição de hoje do jornal O Estado de S.Paulo, em um dos seus editoriais com o título "O fracasso do programa espacial" discute-se de forma bastante interessante a participação do Brasil na área espacial. No ano de 1979, quando ainda estávamos na época da ditadura militar, foi criada a Missão Brasileira Completa, que tinha como objetivo principal colocar o Brasil na era espacial, por meio da construção de satélites e foguetes e lança-los a partir do território brasileiro.

Passados quase 30 anos, infelizmente, pouco conseguimos avançar, principalmente por não haver continuidade na aplicação de recursos compatíveis para tal empreitada, mas também pela falta de uma política adequada de formação e fixação de recursos humanos no Brasil. Muitos dos melhores técnicos foram para o exterior, em busca de melhores condições de trabalho. Foram construídos satélites de sensoriamento remoto e alguns foguetes de sondagem atmosférica. Infelizmente o Veículo Lançador de Satélites (VLS) teve três fracassos, e o último custou a vida de 21 técnicos e cientistas, em 2003.

Conforme informa o jornal, o Brasil está fora do projeto da Estação Espacial Internacional, por não ter simplesmente cumprido o acordo que fora estabelecido em 1997, mesmo com a renegociação feita para diminuir os custos da parte brasileira. Em particular a viagem do astronauta Marcos Pontes que custou US$ 20 milhões aos cofres brasileiros e pouco (ou talvez nenhum) retorno científico trouxe ao nosso programa espacial, pesou de forma muito negativa. Pagar para viajar em um foguete russo e não cumprir a parte do acordo com a NASA realmente não parece uma atitude série para um parceiro que nunca investiu nada no projeto.

Dessa forma, talvez o sonho especial brasileiro tenha que caminhar ainda de maneira muito acanhada. Há um enorme mérito em tudo que já foi feito aqui nessa área, conseguido muito mais por dedicação das pessoas envolvidas do que por uma política de Estado. Precisamos realmente trabalhar bastante e de forma continuada tendo objetivos factíveis no horizonte, principalmente com uma proposta de financiamento razoável. Passeios orbitais podem despertar vocações, mas se estas não podem se tornar realidade, pois não existem investimentos compatíveis para transformar esses sonhos em realidade, é literalmente jogar dinheiro para o espaço e deixar cair por terra o que realmente um país como o nosso precisa.