sábado, 21 de outubro de 2006

Os vôos da imaginação

Coluna Física Sem Mistério
Publicada no Ciência-Hoje On-line
20/10/2006

A capacidade de imaginar é uma das características mais marcantes da inteligência humana. Utilizando essa capacidade, o homem consegue entender o mundo ao seu redor e, a partir dessa compreensão, consegue, por exemplo, superar limitações físicas e vencer as distâncias. Um dos sonhos mais antigos do homem é alcançar os céus. Em praticamente todas as culturas, em todas as épocas, o céu era considerado um lugar especial, reservado apenas a heróis e deuses. Muitos povos imaginavam que as posições das estrelas representavam seus mitos e lendas e imortalizavam seus deuses, heróis, crenças, esperanças e, em alguns casos, temores. Tais configurações são conhecidas como constelações.

Foi por meio da imaginação que muitos tentaram atingir os céus. Em particular, o mito do vôo de Ícaro nos mostra que esse desejo vem de épocas remotas. Segundo a mitologia, Dédalo, o pai de Ícaro, construiu asas com penas de pássaros coladas com cera, para que ambos pudessem fugir do labirinto do Minotauro, onde foram presos pelo rei Minos. Antes de levantar vôo, o pai recomendou a Ícaro que não deveriam voar nem muito alto (perto do Sol, cujo calor derreteria a cera), nem muito baixo (perto do mar, pois a umidade tornaria as asas pesadas). Entretanto, a sensação de voar foi tão estonteante para Ícaro que ele esqueceu a recomendação e elevou-se tanto nos ares a ponto da previsão de Dédalo ocorrer. A cera derreteu e Ícaro perdeu as asas, precipitando-se no mar e morrendo afogado.

Sabemos que um vôo como o de Ícaro e Dédalo é impossível e que voar mais alto não o levaria tão perto do Sol a ponto de derreter a cera que colava as penas. Nenhum ser humano tem força física suficiente para levantar o seu peso batendo as asas como um pássaro. Felizmente, ao invés de força física, a imaginação e a inteligência podem ser os maiores aliados para superarmos nossas limitações.

Dos balões aos aviões

As primeiras tentativas bem sucedidas de voar aconteceram com o uso de balões. Quando os balões são inflados com ar quente ou com gás hélio, eles levantam do solo, porque o aumento do volume faz com que a densidade do balão (a densidade é a massa do balão dividida pelo seu volume total) fique menor do que a do ar. Quando isso ocorre, a força de empuxo faz com que o balão suba para o céu, pois objetos cuja densidade seja menor do que a densidade da atmosfera tendem a flutuar. Por esse motivo, costuma-se dizer que os balões flutuam por serem ‘mais leves do que o ar’, ou seja, com menor densidade. Esse efeito é o mesmo que impede que navios com centenas de toneladas afundem, pois, como têm um compartimento cheio de ar, a densidade deles torna-se menor do que a da água.

Entretanto, os balões (ou dirigíveis, que são balões com motores para deslocamento) eram muitos lentos e pouco manobráveis. Era possível alcançar o céu, mas não podíamos voar como os pássaros. Esse desafio começou a ser vencido com o vôo histórico do 14 Bis do brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932), em Paris, que ocorreu em 23 de outubro de 1906, exatamente há 100 anos. Santos Dumont mostrou que era possível voar utilizando um veículo mais pesado do que o ar. Inventou, assim, o avião.

A explicação para o vôo dos aviões está baseada no conhecido princípio de Bernoulli, segundo o qual a maior velocidade do fluxo de ar na parte superior das asas provoca uma pressão menor e, como conseqüência, a diferença de pressão sobre o aerofólio, devido às diferentes velocidades do fluxo do ar em cima e embaixo dele, gera a força de sustentação. Essa explicação foi desenvolvida por diversos pesquisadores no começo do século 20.

Desde o vôo do 14 Bis, os aviões evoluíram muito e hoje é fácil se deslocar de um continente para outro em algumas horas. Esse era o sonho de Santos Dumont: o avião como um meio de transporte que facilitasse a vida das pessoas. Infelizmente, o avião também se tornou uma das mais mortais armas de guerra já criadas, aplicação com a qual Santos Dumont jamais concordou. Contudo, o legado deixado pelo ‘pai da aviação’ será sempre lembrado como um grande incentivo para nos aventurarmos em vôos mais altos.


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A coluna Física sem Mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês pelo físico Adilson J. A. de Oliveira, professor da UFSCar

Ultrapassamos a marca dos 20.000 acessos

Agora no mês de outubro o Blog ultrapassou a marca de 20.000 visitas.
Sem dúvida fico contente, principalmente porque a marca de 10.000 visitas, atingida em maio desse ano, levou cerca 16 meses. A novas 10.000 visitas ocorreram nos últimos 6 meses.
Espero que continue agradando os visitantes.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Os 40 anos da Sociedade Brasileira de Física



Nos dias 02 e 03 de outubro houve um evento comemorando os 40 anos da SBF - Sociedade Brasileira de Física. Foram uma série de palestras sobre os principais temas de pesquisa em Física no Brasil. Foi interessante poder ver as várias áreas da Física, uma vez que devido ao tamanho da comunidade (algo de 6000 doutores em Física no Brasil) não existe um evento onde todos se encontram. Neste, em particular, tinha a presença de aproximandamente 500 pessoas no Auditório Elis Regina em São Paulo.

Em particular, a sessão de encerramento, na qual foram homenageados todos os ex-presidentes ainda vivos, foi muito interessante. Encontrar com alguns que fizeram (e fazem a história) da Física do Brasil é sempre facinante. Alguns estudantes de graduação que compareceram ao evento (infelizmente poucos) puderam conhecer e se orgulhar de um pouco do que a da Física brasileira já fez e quanto os físicos sempre estiveram empenhados não somente na própria Física, mas também em momentos políticos difíceis que o Brasil já viveu, como na época da ditadura militar.

Entretanto, o mais curioso de tudo foi a auto exaltação dos Físicos. Como para o encerramento estavam convidados o Ministro da Ciência e Tecnologia, Prof. Sérgio Rezende (que também é físico, mas não pode comparecer devido a problemas no vôo), o Diretor da FAPESP (Carlos H. de Brito da Cruz, também físico), Ronaldo Motta (secretário do MEC, também físico) lembrou-se que muitos físicos brasileiros ocuparam (ou ocupam ) cargos de destaque na área da pólitica científica brasileira. Alguns deles são chamados para trabalhar em áreas que a sua formação científica não tem relação com a atividade que vão desempenhar. Dessa forma, os físicos podem fazer qualquer coisa, pois eles são capazes de aprender tudo, ou seja, "os físicos são o máximo!"

Então, uma pergunta surgiu. Por que os físicos são (ou se acham) o máximo? Qual a evidência científica disso? Essas perguntas foram feitas pelo físico Constantino Tsallis, um dos mais importantes físicos teóricos brasileiros.

A resposta para essas perguntas, dada por ele mesmo, da forma que eu entendi, seria o seguinte:

Segundo Aristóteles a maior feito da capacidade humana é a criação de metáforas, pois elas permitem a compreensão do mundo. Segundo Tsallis, os físicos talvez sejam bons em justamente fazer isso, ou seja, criar as suas metáforas (modelos) para compreender o mundo. Daí, então, a empáfia dos físicos de se acharem o máximo.