domingo, 30 de maio de 2010

A pseudociência na universidade

A universidade, por excelência, é o lugar para se discutir ideias e se desenvolver novos conhecimentos. A liberdade  para trabalhar e discutir é de fundamental importância para o que na universidade consiga atingir esses objetivos. Nem tudo que se faz na universidade é ciência. Existe o desenvolvimento de conhecimentos nas áreas de Cultura e Artes, por exemplo, que não são Ciência, mas são tão importantes como qualquer outro..
Entretanto, há,  na minha opinião, um problema quando atividades pseudocientíficas, por serem  realizadas na universidade, começam a ganhar status de "Ciência". É o caso da Universidade de Brasília, que tem desde 1989 o "Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais", que aparece em destaque na edição de hoje (30/05) no caderno de Ciência da Folha de S.Paulo (a reportagem compleata nesse link, apenas para assinantes).

A reportagem começa apresentando as credenciais acadêmicas do coordenador do núcleo, que é físico  e dá uma ampla divulgação as atividades do núcleo. A tônica da reportagem é informar que as "pesquisas" realizadas é perseguida por setores da universidade e que órgãos de fomento a pesquisa nunca aprovam projetos para esse tipo de atividade e para que elas ocorram devem recorrer a financiamento do exteriors, Curiosamente, como resultado importante do Núcleo é relatada a "experiência" de levar paranormais para o hospital da UnB para adivinhar o que os pacientes tinham. Os resultados foram que os sensitivos não acertavam mais do que um processo randômico, ou seja, escolha aleatória de respostas.

A Folha de S.Paulo, como manda o bom jornalismo, não fez um contraponto, ou seja, não ouviu ninguém do outro lado, qual é a opinião dede outros pesquisadores sobre esse tipo de atividade. O Núcleo promove pesquisas e cursos nas áreas de Astrologia, Ufologia, Conscienciologia e terapias inegrativas. A Folha se limita a citar que na década de 30 do século passado, na Universidade de Duke, houves pesquisas desse tipo.

Eu acho que publicar uma matéria desse tipo no caderno de Ciências a Folha de S.Paulo errou, principalmente pela falta de ouvir outro lado. Reportagens desse tipo apenas incentivam esse tipo de atividade pseudocientífica na universidade.
Em 2005, já tinha publicado um comentário sobre o curso de Astrologia da UnB.

No mês passado, no dia 16 de abril, o Departamento de Medicina da UFSCar, promoveu a palestra "A Ciencia atual e a Sabedoria Perene: como correlacionar a física atual com a meditação na promoção da saúde?" Na palestra o  médico Cláudio Azevedo,  da Universidade Federal do Ceará (UFC) discorreu  sobre a moderna física de alta energia e cosmologia, analisando os conceitos de vazio, multidimensionalidade e incerteza quântica estabelecendo relação entre o observador e os experimentos quânticos e como os níveis ampliados de consciência exercem efeitos na promoção da saúde. Não é preciso comentar, pois novamente foi uma palestra de "pseudociência" agora na UFSCar.

Devemos tomar cuidado com esse tipo de atividades, pois elas podem até ser discutidas na universidade, mas nunca com caráter científico

terça-feira, 25 de maio de 2010

A nova edição da ClickCiência - Biodiversidade

Está no ar a edição número 22 da ClickCiência, que aborda o tema de Biodiversidade.
Vejam o editorial.

2010: Ano Internacional da Biodiversidade

Aumentar a consciência mundial sobre a importância da preservação da diversidade biológica. Este é um dos principais objetivos do Ano Internacional da Biodiversidade.A data foi escolhida pela Assembleia Geral das Nações Unidas e deve servir para mobilizar esforços que levem à diminuição do ritmo com que o declínio da variedade de vida vem ocorrendo, tendo em vista sua importância para a qualidade da existência e para a própria sobrevivência humana.

As discussões sobre este assunto são infindáveis. Falta consenso e sobram divergências que vão desde o próprio entendimento sobre o que é biodiversidade até a relação que o Homem mantém com as outras espécies. Embora ainda seja considerado negligente no que diz respeito à legislação para proteção e exploração científica de sua diversidade biológica, o Brasil avança nas pesquisas e políticas voltadas ao setor. Iniciativas como o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), e o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (Biota-Fapesp) são exemplos desse esforço.

Os meios de comunicação exercem um papel fundamental nas discussões sobre biodiversidade, a exemplo do que ocorre com outros assuntos de interesse social. Cabe a eles prover o cidadão com informações que possibilitem uma reflexão crítica sobre a questão, passo fundamental para concretizar qualquer tipo de mudança.É isto que a ClickCiência pretende incitar nesta edição.Boa leitura!Fim do editorial


Boa leitura!

sábado, 22 de maio de 2010

Um olhar para além dos sentidos

Coluna Física sem mistério
Ciência Hoje On-line
Publicada em 21 de maio de 2010

Em dias ensolarados é muito gostoso caminhar pelo campus da universidade onde trabalho (Universidade Federal de São Carlos, UFSCar) para sentir o calor do Sol, observar árvores verdinhas, sentir o perfume das flores e ouvir os pássaros que cantam nas ruas do campus (que levam o nome das aves que lá vivem).
Essas agradáveis sensações, percebidas pelos nossos sentidos, modificam nossos sentimentos e provocam diversas reações.
A percepção que temos do mundo à nossa volta é decorrente do contato sensorial. Tudo que é percebido pelos nossos sentidos faz com que construamos uma percepção da realidade. Mas os nossos sentidos, embora muito desenvolvidos, percebem apenas uma parte do mundo à nossa volta.
Por exemplo, os nossos olhos detectam uma pequena parte do espectro eletromagnético. Eles são sensíveis a radiações que tenham um comprimento de onda entre 700 a 400 nm (um nanômetro equivale a um bilionésimo de um metro). Esses limites equivalem respectivamente à cor vermelha (700 nm) e violeta (400 nm), passando pelo amarelo, verde e azul.

Entretanto, somos expostos a outras radiações, que vão desde ondas de rádio – que possuem comprimento de onda de dezenas de metros – até radiações de mais alta energia, ultravioleta e raios-X, que têm comprimento de onda de centésimos de nanômetros.
Temos o conhecimento dessas outras radiações pelo uso de outros “olhos”, desenvolvidos artificialmente. Assim, podemos detectar as ondas de rádio utilizando antenas, e os raios-X com sensores feitos de cristais de silício.
As sensações que temos são interpretadas pelo cérebro e criam diversas reações, como de paz e tranquilidade, na situação descrita acima; ou de medo e apreensão, se estivermos em lugares sujos e escuros. Entretanto, cada pessoa reage aos mesmos estímulos de maneira completamente diferente.
Os estímulos também podem nos remeter a memórias e pensamentos, criando uma infinidade de reflexões. As informações podem ser as mesmas para vários indivíduos, mas a resposta é quase sempre única para cada um.

Moldados  pela natureza

Nossos sentidos funcionam em determinadas regiões do nosso corpo a partir de estímulos que recebemos do meio ambiente. Eles são baseados em “sensores” muito sofisticados que foram desenvolvidos ao longo de milhões de anos, fruto da evolução.
Cada um deles foi se transformando devido aos estímulos do meio ambiente, favorecendo as configurações mais adaptadas aos desafios impostos pelo meio. Estamos aqui hoje graças ao sucesso do nosso projeto. Ele foi vencedor na concorrência imposta pela natureza.
Costuma-se ter muita confiança no que os nossos sentidos nos transmitem. Em particular, a visão é um dos que consideramos mais confiáveis. Quando vemos alguma coisa, ficamos mais seguros sobre aquilo a que se refere.


A visão funciona de maneira extremamente sofisticada. Nossos olhos se ajustaram para captar uma faixa de 400 a 700 nm, porque grande parte da luz do Sol que chega a nós está dentro desta faixa de comprimento de onda.
Se emissão de luz do Sol fosse predominantemente em outros comprimentos de ondas, a nossa visão do mundo poderia ser bem diferente.
Nossos sensores visuais utilizam o cristalino, que funciona como uma lente que fica dentro dos olhos. Ele está situado atrás da pupila, que é a porta de entrada que admite e regula o fluxo de luz. Quando somos expostos a luzes muito intensas, a nossa pupila se contrai. Já se estamos em um lugar escuro, ela se dilata para coletar melhor a luz.
Assim, quando entramos em uma sala escura, precisamos de alguns segundos para enxergarmos melhor. A luz concentrada pelo cristalino atinge a retina, que é composta de células nervosas que levam a imagem através do nervo óptico para que o cérebro as interprete.

Em particular, como qualquer lente, o cristalino projeta a imagem invertida. O nosso cérebro 'sabe' que é preciso levar isso em consideração e interpreta esses sinais de maneira a “inverter” a imagem.
Por isso, embora seja o olho que capta a luz, quem enxerga e vê as imagens é o cérebro. É por esse motivo que, quando sofremos algum abalo na cabeça ou temos, por exemplo, uma crise de enxaqueca, as imagens que vemos aparecem distorcidas, embora os olhos as estejam captando perfeitamente. Nesse caso, o problema não está no 'sensor', mas sim no 'interpretador de dados'.

Estímulos para todos os sentidos

Os outros sentidos, audição, olfato, gustação e tato, são estimulados por outros meios, como mecânicos (no caso da audição e tato), térmicos (tato) e químicos (olfato e gustação). A orelha capta os sons e barulhos e os envia ao córtex cerebral. Devido às diferenças na frequência de cada onda sonora, ouvimos diferentes sons. Ao entrar pelo canal auditivo, as ondas sonoras fazem com que ocorram vibrações nos tímpanos.

Já o tato não tem um órgão específico, pois todas as regiões do organismo possuem mecanorreceptores responsáveis pela percepção do toque, bem como termoceptores para perceber o frio e o calor e terminações nervosas livres para perceber a dor, mudando apenas de intensidade.
No caso do aparelho gustativo e olfativo, temos células específicas na língua (gustação) e nas narinas (olfato) – sendo que o olfato é o único sentido diretamente ligado às emoções e memórias. Os outros sentidos também nos remetem a memórias, mas de forma indireta.
De uma maneira semelhante, tentando imitar a natureza, o homem desenvolveu meios para ampliar os seus sentidos. Por exemplo, os telescópios funcionam como gigantescos olhos. Um telescópio que tem quatro metros de diâmetro (como o caso do telescópio espacial Hubble) capta um milhão de vezes mais luz do que o olho humano.
Para ampliar a visão e observar o muito pequeno, é necessário utilizar outros olhos capazes de captar outras faixas de radiação. É o caso dos microscópios eletrônicos, que a partir de um feixe de elétrons permitem interagir com a matéria na escala atômica e observar até átomos. Neste caso, os elétrons funcionam como ondas – com comprimento de onda de alguns décimos de nanômetros.

Os sentidos também podem ser substituídos ou magnificados utilizando-se outros tipos de equipamentos e materiais. Um exemplo é a “língua eletrônica” desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP e da Embrapa, que utiliza polímeros condutores como sensores e possui mil vezes mais sensibilidade do que a língua humana.
Ela é utilizada para testar a qualidade de café, vinhos, água, leite etc. A interação desses líquidos com os polímeros altera a sua condutividade, e esta é utilizada para identificar o tipo de produto.
O nosso olhar para o mundo é influenciado, portanto, pelas nossas experiências, e as nossas experiências são afetadas pelas sensações que nossos sentidos captam. Esse retorno contínuo é de fundamental importância para o nosso desenvolvimento. Tanto os sensores (sentidos) como as sensações (interpretações) são responsáveis por isso. O resultado disso é sempre um individuo único com as suas visões particulares do mundo.

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A coluna Física sem mistério é publicada na terceira sexta-feira do mês

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Foi criada a primeira forma de vida sintética?

Foi publicado ontem na Revista Science o trabalho do grupo liderado por J. Craig Venter, no qual uma  bactéria cujo DNA foi montado totalmente a partir de informações progamadas no computador ganha vida e passa a se replicar. A equipe de pesquisadores inseriu um genoma artificial dentro de uma bactéria sem genoma e conseguiu fazer com que essa bactéria passasse a obedecer os comandos do novo genoma. Foi um experimento  de US$ 40 milhões e  levou mais de 10 anos para ser concluído. Dentre as inúmeras possibilidades que se abrem após esse feito é  inserir genomas artificiais em bactérias e, por exemplo, programa-las para  produzirem biocombustíveis, absorverem gás carbônico da atmosfera e até manufaturarem vacinas.O próximo passo que eles vão dar (e que já provavelmente já o fizeram) e a partir de organismos sintéticos descobrir qual o número mínimo de genes necessários para sustentar vida. Isso permitirá criar novas formas de vida, simplesmente adicionando genes a esse genoma mínimo.

Entretanto, o experimento pode ainda não ter realizada a criação de vida artificial,  porque a bactéria receptora ainda foi natural, apenas foi retirado o seu genoma. Seu citoplasma ainda permaneceu  cheio de substâncias próprias. Foi como se tivessem trocado o software no hardware de uma célula.

Esse resultado, impressionante sem dúvida, poderá não apenas modificar a biotecnologia, mas também mudar a nossa concepção sobre o que é vida. Quando surge uma nova grande descoberta surgem os medos, como por exemplo, de se criar um organismo que fuja ao controle do laboratório e se contamine todo o mundo, levando a uma doença incurável e dessimando toda a vida. Quem conhece a série de filmes "Residente Evil" (que já foi adptado de um jogo de videogame)  com certeza pode imaginar que algo semelhante possa acontecer.

De fato, toda nova descoberta pode levar a caminhos ainda não imaginados. Muitas pessoas olham com desconfiança, pois Venter já trabalhava o projeto Genoma Humano e saiu para fazer o seu em paralelo e quis patentar os genes que ele sequenciou, ou seja, ele é um pessoa que não apenas faz ciência, mas também olha para as aplicações com grande retorno financeiro.

Logo outros grupos de pesquisas vão fazer algo semelhante e talvez a um custo muito menor. É claro que uma tecnologia como esta pode ser usada de maneira pacífica ou com fins militares, pois sem dúvida abre uma nova porta para as armas biológicas. Dessa forma, é necessário que todas essas pesquisas sejam feitas pensando também nas consequências éticas.

Eu acho que acabamos de ver um novo marco na Ciência, onde ela deixou de ser ficção e se tornou realidade.

Mais detalhes podem ser vistos na própria Science. O jornalista Marcelo Leite fez um interessante comentário na Folha de S. Paulo de hoje sobre o tema, mas disponível apenas para assinantes

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O céu da semana

 Semanalmente no Programa Paideia, na Radio UFSCar, apresentamos no céu da semana. Agora está disponível em vídeo, com apresentação do astrônomo Gustavo Rojas, também apresentador do Paideia